sexta-feira, 13 de março de 2009

JOÃO MENEZES NETO - nepomucenense de memória inigualável e rara inteligência crítica
João Amílcar Salgado
Na minha infância, quando éramos vizinhos, ele era o Joãozinho da dona Norvina, isto porque, na Vila daquele tempo, as crianças eram das mães e não dos pais. Eu, por exemplo, era o Amírca da dona Vange. Só que o João(zinho) Menezes Neto estudava na cidade na casa dos avós, enquanto seus pais ficavam lá na fazenda do Sapé. Então ele era da dona Norvina, mais especificamente, Norvina Garcia Frade Menezes, sua avó paterna, que também pode ser considerada minha avó emprestada, de tanto que eu passava os dias em sua casa e em sua companhia. Ela morava no comércio, como se dizia, mas, na sua prosa, nos seus cacoetes e principalmente nas coisas deliciosas de sua cozinha, ela nunca abandonou a legendária fazenda do Morembá, onde foi criada e de onde saiu para casar com o João Evangelista de Menezes, o maior amigo de meu pai. A dona Norvina, (comadre de minha mãe por ser madrinha de minha irmã Neusa) foi uma das pessoas mais adoráveis que conheci.
O Joãozinho Menezes, desde pequeno, passou a jogar futebol no campinho da rua Nova (rua João Inácio Dias), de onde surgiram vários craques da Vila, um deles ele, que, quando foi estudar e jogar no Instituto Gammon em Lavras, recebeu o apelido de Farelinho, com o qual foi aplaudido goleador nos estádios da região. E nesse colégio ele brilhou também no atletismo, projetando-se como velocista. Melhor ainda foi seu desempenho nos estudos, diplomando-se excelente dentista. No curso e na prática odontológica logo se revelou não só hábil mas ágil cirurgião, de tal maneira que, se tivesse cumprido seu desejo de estudar também medicina, teria feito enorme sucesso como médico cirurgião. De qualquer modo essa sua vocação médica vem sendo concretizada por meio do filho Henrique Lima de Menezes, meu ex-aluno que se revelou médico de rara competência e impressionante dinamismo, do neto Marcelo Menezes Breyner e certamente de outros descendentes.
Usando de minha condição de pedagogo na área da saúde, afirmo que é uma pena que este cérebro maravilhoso não tenha sido professor universitário. Ele tem uma espécie incomum de capacidade de memorização: a memória enciclopédica associativa. Isso quer dizer que seus neurônios acumulam as informações não só sem qualquer esforço, mas as conservam automaticamente associadas. O engenheiro Antônio Lívio Salgado, ex-diretor das Centrais Elétricas de Minas Gerais, confessou-me que o João Menezes Neto foi o melhor entre os melhores professores que encontrou em nosso antigo Ginásio São José, onde ministrou aulas de Ciências, com invejável firmeza e indelével clareza. Todos os conterrâneos já sabem dessas suas qualidades superiores, principalmente os que já conversaram com ele sobre três assuntos: futebol, parentesco e anedotário municipal.
De futebol fala de cátedra, pois, além de ex-craque, acompanha o noticiário cotidiano e, na rua em que mora, a cada minuto, topa alguém com quem lembra um momento memorável do futebol nepomucenense, brasileiro ou mundial. Por exemplo mostrei-lhe uma foto emprestada pelo Bôca (Clécio Felicori, outro brilhante ex-craque) e ele identificou cada pessoa, sendo que a foto era de 1937! E ele arrematou: o Romeu Felicori, este aqui, foi um jogador tão excepcional que, se tivesse aceito o convite para carreira fora da Vila, teria chegado à seleção nacional.
Em matéria de parentesco, o Joãozinho foi preciosa fonte para sua prima, a Denise Garcia, quando ela escrevia o livro OS GARCIA-FRADE. Certo dia ele me perguntou se o escritor Luiz Vilela havia localizado o nome dele entre os Garcia-Frade. Respondi que eu mesmo fiz essa pergunta ao Luiz e este me disse que ouvira falar por alto da publicação. O Joãozinho ficou surpreso e exclamou: Então ele, um escritor, não leu o livro?!.... Depois de acalmá-lo, expliquei que há pessoas, mesmo escritores, que não dão valor a parentescos. E acrescentei: isso indica que os estudiosos de genealogia não são tão comuns e devem ser estimulados, pois a história de Minas Gerais só pode ser conhecida por meio dos segredos escondidos nas árvores genealógicas.
No anedotário municipal, o Joãozinho também não tem competidor. Alguns dos melhores causos de meu livro O RISO DOURADO DA VILA foram fornecidos por ele, que, aliás, em virtude destes e outros subsídios, deveria figurar como co-autor da obra. Além disso, ele é primo do Vito Paca (Vítor Menezes Bernardes) e sobrinho-neto do Joãozico Meneiz (João Batista de Menezes). O Vito e o Joãozico são dois dos personagens-campeões do anedotário da Vila. O repertório de ambos foi-me passado pelo Joãozinho por meio de uma áudio-fita, que gravei em duas longas e gargalhantes tardes.
Mais que dos Garcia-Frade, o Joãozinho é o cronista da família Menezes. Os Menezes de Nepomuceno se ligam aos aristocratas Menezes da Espanha e Portugal, que vieram para o Brasil antes de D. João VI e com ele. São gente da alta nobreza documentada desde o século IX, remontando, a partir dos Teles de Menezes, às casas reinantes dos reis leoneses-asturianos. Ao longo desse tempo milenar, somam escritores, governantes, militares, religiosos, profissionais liberais, educadores, historiadores, artistas e desportistas.
Em Nepomuceno, os primeiros Menezes notáveis são um militar, herói da Guerra do Paraguai e da Retirada da Laguna – o Capitão João Antônio de Menezes - e um sacerdote - o Cônego João Evangelista de Menezes - hoje nome da antiga praça do Rosário. Aos dois deve ser acrescentado um primoroso artista, autor da nossa escultura do SENHOR MORTO (e de outros lavores na Matriz de Campo Belo): Francisco Gorgonha de Menezes. Os três são filhos do ilustre cidadão campobelense Manuel Francisco de Menezes. Outra cidade que conta com ilustres consanguíneos do ramo destes Menezes é Piumhi.
Quando o Joãozinho e eu relatamos tal origem fidalga ao hoteleiro João Tito de Menezes, ele exclamou: eu devia saber disso há mais tempo, para cortar o topete de muita gente metida a ser de família importante e que, vai ver, não é nada! O próprio João Tito deveria ser nome de mais de um lugar. Proponho que a chamada Ponte dos Menezes passe a chamar-se PONTE DO TITO MENEZES, como a chamávamos.
Já o Joãozinho da dona Norvina, esse também é digno de homenagem mais que merecida. Sugiro que o governo municipal, além de mudar o nome da ponte, outorgue formalmente ao seleto João Menezes Neto o título com o qual o povo da Vila já o consagrou: o de HISTORIADOR EMÉRITO DE NEPOMUCENO.

O autor é professor da Universidade Federal de Minas Gerais e historiador do Sul de Minas

quinta-feira, 12 de março de 2009

OS 80 ANOS DE CLIMAR PAIVA – ILUSTRE ALVES VILELA
Os cidadãos nativos e adotivos da Vila estão acompanhando com aplauso a sucessão de reuniões de clãs locais. No momento, a propósito da terceira reunião dos Alves Vilelas, sugiro duas coisas. Primeiro, que todas as demais famílias nepomucenenses façam congraçamentos semelhantes. Segundo, que a próxima dos Vilelas seja uma reunião conjunta de todos os sub-ramos, numa autêntica VILELADA.
A primeira festa foi a dos 90 anos da mui amada Maria Tagliaferri Vilela, na agradável fazenda de sua filha Glorinha, regida (a fazenda e a comemoração) pelo esposo desta, o Toninho Lima Reis – imbatível na fidalguia com que recebe cada um e a todos. A segunda, comandada pelo casal Roberto Vilela Gonçalves e Elina Lima, foi a reunião dos numerosos descendentes do legendário João Alves Vilela Lima. Este foi um Alves Vilela autêntico e tão marcante e em tantos aspectos, sobretudo por sua inventividade e sua habilidade fitoterapêutica, que será objeto de livro biográfico, coordenado pelo neto Evódio Vilela – destacado docente da Universidade Federal de Lavras. A terceira acaba de ocorrer em comemoração aos 80 anos (que parecem menos de 60) da vitoriosa Climar Vilela Paiva, quando foi oportuno homenagear também seu saudoso esposo Jainir Santos Paiva (nosso Nininho), os filhos, irmãos e inesquecíveis genitores.
Divulguei ali um texto que assim termina: Exemplo ilustre dos Alves Vilelas de Nepomuceno são os filhos do casal Jainir-Climar: MARCOS, EDILSON, RENATO e LUCIANO. São todos engenheiros agrônomos (como outros notáveis Vilelas agrônomos), com pós-graduação nos EUA e que brilham na Universidade, na Embrapa ou como empresários – um por um verdadeiros cientistas que honram o boom agrícola que ora vivemos e, mais que isso, a tradição de pesquisa agronômica de Minas e do Brasil. Em Ituiutaba, exemplo igualmente nobilitante dos Alves Vilelas é o jurista João Batista Vilela (como outros notáveis Vilelas juristas e escritores), astro maior, em Minas, no Brasil e no exterior, na especialidade do Direito Privado.
Em adendo especial, fiz a seguinte evocação:
CLYDE ALVES VILELA – MINHA TERNA REFERÊNCIA NO PANFLETO E NO HUMOR
Clyde Alves Vilela, meu inesquecível Tio Lela, recebeu este nome inglês de meu avô Joaquim Alves Vilela, que primou por escolher nomes sofisticados da história e da literatura para os filhos: DEMÉTRIO, ADELAIDE, ADÉLIA, LICÍNEA, CLYDE e EVANGELINA. O povo da Vila recusou a pronúncia inglesa e fez bem em apelidar o Clyde de Lela. Ele foi uma inteligência incomum, exímio e criativo farmacêutico (inventou vários remédios de manipulação) e também temido panfletário na política municipal. Estas qualidades me foram espontaneamente apontadas por seu parente e amigo de juventude Oscar Negrão de Lima, catedrático de Medicina Legal da atual UFMG.
Além de usar de inteligência e criatividade privilegiadas no exercício profissional, no jornalismo partidário e no jogo de xadrez, usou-as em duas outras áreas, hoje marco na tradição de nossa família. Foi um dos contribuintes célebres ao folclore estudantil de Ouro Preto, para onde, no curso de Farmácia, levou o senso de humor inigualável de sua cidade natal – e criou para os filhos que teve com a também inesquecível tia Mariinha (Maria Cardoso Vilela) nomes tão originais quanto designativos de algumas das pessoas mais estimadas da vida nepomucenense: CLIMAR, MARCLI, CLYDE, ILCRAM e RAMILC. Em meu livro de memórias O RISO DOURADO DA VILA, de 2003, procurei deixar fixados para sempre estes e outros dos traços essenciais desse paradigmático grupo familiar sulmineiro.

O autor João Amílcar Salgado é professor titular de Clínica Médica e pesquisador em História da Medicina e do Sul de Minas da Universidade Federal de Minas Gerais

sábado, 28 de fevereiro de 2009

MÉDICA NEPOMUCENENSE FÁUZIA NAIME BRILHA EM SÃO PAULO
Mulher bonita e brilhante, a nepomucenense Fáuzia Naime adquiriu rápida projeção na oncologia paulista e, para coroar este sucesso, acaba de publicar um manual mais do que oportuno não só para seus colegas especialistas, mas também de enorme utilidade ao médico geral, que atue em qualquer lugar deste país. Seu livro tem por título MANUAL DE TRATAMENTO DA DOR, editado pela Manole. A doutora Fauzia de Fátima Naime é formada pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, com mestrado em Oncologia pela Fundação Antônio Prudente - Hospital AC Camargo. Titulada em oncologia clínica desde 1997, pertence ao corpo Clínico do Hospital IGESP e do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, sendo diretora clínica do setor de quimioterapia do Instituto Paulista de Cancerologia (IPC). O texto é exemplarmente claro e o leitor encontra nele, com facilidade, não só a informação segura, como a orientação autorizada, oriunda da experiência dos serviços onde a autora atua. Nepomuceno conta, entre sua juventude, promissora geração de intelectuais e artistas, que, como a doutora Fáuzia, honram forte e expressiva tradição

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

HÉLCIO LOBO DE FARIA
O penúltimo romântico
João Amílcar Salgado
Sua voz de locutor na Rádio Inconfidência tornou-se inesquecível, mesmo com a tecnologia ainda precária dos anos dourados. Hoje ela seria muito melhor apreciada, pois sua qualidade excepcional residia exatamente nos atributos de tons que dispensavam a impostação. Aos ouvidos femininos, ela devia ter reverberações magnéticas. Suas ouvintes ficavam ansiosas para conhecer o dono da atrativa dicção e quando descobriam pertencer àquele simpático e circunspecto moreno, tornavam-se fâs permanentes. Com o tempo passou a se parecer mais e mais com Evaldo Gouveia, o grande compositor de canções eternas. Chegou a dar autógrafos passando-se pelo notável músico, disfarce brincalhão que a seguir desfazia entre risos e abraços.
Por sinal, sua coleção de gravações em vinil era riquíssima de diferentes interpretes das criações desse seu sósia: Que Queres Tu de Mim?, Brigas, Alguém me Disse, Sentimental Demais,Tango para Teresa, Somos Iguais, O Conde, O Trovador, Bloco da Solidão e outras. Chegou a acumular muitos discos, pois as gravadoras viam no locutor um meio efetivo para divulgar seus lançamentos. Além disso, tinha discos valiosos de Valdir Calmon, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra e Maysa e também dos clássicos do samba e da música hispano-americana. Ele gentilmente me emprestou a maioria deles para que eu gravasse em fita e hoje constituem um tributo de saudade a este romântico definitivo.
A mais preciosa delas é a gravação do Lamento Borincano em orquestração majestosa, que me fez reviver os bailes com a orquestra Cassino de Sevilha. Em meu livro de memórias, O RISO DOURADO DA VILA (2003) descrevo a inesquecível re-inauguração do clube de minha cidade, exatamente com esta orquestra e esta execução: “Chega a hora: onze da noite. O salão já está repleto e num vozerio danado. De repente, súbito silêncio corre o público. É o desfile dos músicos que vão chegando para ocupar seus lugares. Parece apresentação de toureiros, mas suas vestimentas são ainda mais bonitas, pois misturam a destes com os mais vistosos uniformes militares. Gala assim jamais foi vista, com tanto enfeite e tanto brilho! Completam o cortejo duas morenas andaluzas de vestido longo, com uma fenda até o meio das coxas. Ao andar, suas pernas perfeitas se entremostram provocantemente. São duas lindas carmens que desencadeiam audível onda de suspiros na rapaziada, seguida de outra onda, esta de resmungos das mocinhas.Os músicos se sentam e ficam mexendo discretamente em seus instrumentos. Ouve-se, então, leve rufo e eles se põem de pé. É o instante em que começa aquela coisa inesquecível, ao mesmo tempo comovente e triunfal: são os acordes magníficos do Lamento Borincano, trinado na orquestração de Peres Prado. A beleza esmagadora dos metais e violinos, se prolongam por deliciosas variações da melodia, pois, a cada vez, um naipe de instrumentos se ergue e a coisa se faz cada vez mais inebriante. Quando a música cessa sob a explosão de aplausos, os músicos apenas se curvam em agradecimento, pois de imediato mudam o ritmo e começa a rumba Quien Será. É tocada num sincopado tão rebolante que o salão em peso começa a se mexer. E então as duas moças saem a dançar com dois dos rapazes da orquestra. Depois de duas voltas de exibição, somos convidados pelos dois pares para iniciarmos o baile.” Quando o livro saiu, li para o Hélcio esse trecho e seus olhos marejados brilharam de nostalgia. E comentou: Que pena, eu não estar lá nesse dia!...
Num aniversário em sua casa ele me desafiou a achar em sua coleção uma preciosidade para ouvirmos. Propus que eu apontaria uma e ele outra. A que escolhi era cantada por Geysa Celeste e era assim: Tu me acostumbraste, a todas esas cosas. / Y tu me enseñaste, que son maravillosas. / ... / Por eso me pregunto al ver que me olvidaste. / Por que no me enseñaste cómo se vive sin ti. A dele, cantada por Galves Morales, era assim: Nuevamente vendrás hacia mí, / Yo lo aseguro, / Cuando nadie se acuerde de tí, / Tú volverás./ / ... // Cuando estés convencida / Que nadie en el mundo, / Te puede querer como yo, / Tú vendrás a buscarme, / Sé muy bien que vendrás. E nós dois ouvimos todas esas cosas com os olhos perdidos lá atrás nos anos dourados. Mais emoção veio em seguida quando a Leila pôs a Sarita Montiel para cantar Besos de Fuego e depois Nostalgias. Não teve jeito: ela e eu saímos dançando pela sala...
Logo que conheci o Hélcio, eu disse à Leila que a voz dele me era familiar, de tanto ouvir a Rádio Incondidência, mas que sua figura também me trazia vaga lembrança. Ela disse: já sei é do INPS, onde ele trabalhou por muitos anos!... Respondi que não, a lembrança é de tê-lo visto se exibindo em passos perfeitos de dança, no clube Montanhês. Ele danou a rir e todas as vezes que se falava em música ou dança, ele me pedia para lembrar esse diálogo. Quando foi exibida a série sobre Hilda Furacão na televisão, nós dois consumíamos muita prosa em discutir quais os trechos que eram realmente acontecidos e quais eram frutos da imaginação do Roberto Drummond. Este nessa época era meu vizinho e ambos freqüentávamos o salão do cabeleireiro Gonçalves, onde a Hilda era o tema principal. Lembro-me de um dia ali onde estavam também o Tite (dublê de humorista e exímio cabeleireiro), o Zé Maria Rabelo e o Ariosvaldo de Campos Pires.
Quando a Leila e eu nos casamos, ela temeu que eu me recusasse a comparecer à Tenda do Silêncio, onde o Hélcio seria o oficiante da cerimônia. Ela ouviu com a maior alegria, quando lhe disse que, não sendo adepto daquela religião, iria com o maior prazer. Seria, demais, uma homenagem a meu avô que sofreu absurdas perseguições por ter-se tornado espírita e a homenagem seria também para minha querida prima Zulmira, médium de projeção nacional e internacional. Outra que muito se alegrou com isso foi a dona Vange, minha mãe, pela oportunidade de presenciar rito matrimonial para ela inédito. No ofício, o Hélcio se viu dominado por particular emoção, pois a noiva era sua irmã, sendo que, mais que isso, ele era o segundo pai dela, pois perdera pai e mãe muito cedo.
E foi com aquela dicção perfeita de profissional do rádio que Hélcio Lobo de Faria oficiou a cerimônia. Parecendo estar em transe, proferiu conceitos morais altíssimos, certamente advindos de todos os santos, de todas as religiões e de todos os tempos. Mas ele estava ali diante de um auditório incomum. E todos o ouviam como se ouvissem a um profeta. Sim, naquele caso, era a mais seleta audiência jamais reunida naquela Tenda: era a alta cúpula da principal universidade de Minas Gerais.

Hélcio Lobo de Faria é cunhado do autor e faleceu em 2008

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

SUGIRO AOS AMIGOS DESTE BLOGUE QUE LEIAM O TEXTO MACHADO DE ASSIS, MINAS E A HISTÓRIA DA MEDICINA DIVULGADO EM www.medicina.ufmg.br/cememor

domingo, 23 de novembro de 2008

VINÍCIO DE TODOS OS PALCOS

João Amílcar Salgado

Tangos arrabaleros, boleros de arrastre, valsas e canções seresteiras – eis o encanto que desfruto freqüentemente junto ao grupo do Vinício, com seus músicos feiticeiros: Nievas, Maximiano, Lenice, Ramonda e Fernando. São brasileiros e argentinos que extraem, de cochichos de violinos e resmungos de gaitas, malabares melódicos para a gente fruir e sonhar. Quem os irmana é um maestro zíngaro, com ascendentes galego-ítalo-franceses - doublé de ator e cantor, de arranjador e intérprete – provando ser o mais poeta (mal dos Vinícios) dos Tisos, todos poetas. Por que? Porque se recusa, como ocorreu a Chaplin, a deixar de ser a criança que de fato é. Encanecido, ainda é o pirralho que brincava de pique com o garoto Aureliano, na praça acolhedora de Três Pontas. É o sempre menino, herdeiro de muitos traços da mãe-heroina Antonieta, e que acompanhava encantado o pai, o irrecuperável boêmio Mário (dono de uma legenda em seu rastro), pelos bailes da vida, comendo poeira aos solavancos das boléias.

Estávamos no coquetel do Pedro Bial, celebrando o documentário sobre Guimarães Rosa. Rara ocasião de encontros inapagáveis, por exemplo entre a maior autoridade mundial em Rosa, Luiz Savassi Rocha, e o januarense Levínio Castilho, descendente de Rotílio Manduca, o Zé Bebelo existido de carne-e-osso. Mostro a Castilho a flautista Taciana, o ornamento musical da confraternização - grávida e angelical, tão digna do maior silêncio e tão indiferente ao bla-bla-blá invencível. Garanto: virtuose na flauta como o pai no violino! Lembro-lhe, demais, que o Juscelino incentivou o maestro Epaminondas a constituir a maior orquestra de violinos do mundo aqui no Brasil, aplaudida de 1950 a 80, e nela estava incluído o violino vibrante do Vinício. Imediatamente, Levínio quis a família e a respectiva orquestra em sua inesquecível festa de cidadão honorário. E até hoje o vejo com sua esposa Teresinha, de origem bom-despachense, a sempre bela musa de Guignard, em rodopios de valsas e tangos, tendo em volta os irresistíveis violinos tisos. Eram o norte e o sul de Minas frente a frente, temperados pelos eflúvios de um bom despacho e da melhor cachaça. Ora o deputado montesclarense Genival Tourinho explicava o fenômeno humano chamado Simeão Ribeiro Pires, ora o sindicalista nepomucenense Luiz Fernando Maia dizia das façanhas de seu pai Alfredinho Maia e dos vínculos oeste-sul entre Assunçãos. Ora, então, valsavam o neuriatra Guilherme Cabral e a arquiteta Solange, aplaudidos sem socapa.

Agora, estamos num sábado de supermercado e lá está a troupe do Vinício, enlevando os consumidores em doces acordes. Que ótima idéia, que sacada feliz! Vejo os rostos duros se abrindo. Vejo os olhares se alongando em saudades reincidentes. Vejo lábios sintonizados na evocação de letras que dizem mais do que dizem. E tais respostas são captadas pelos menestréis que redobram o dolorido de tons e entre-tons. E o mais belo de tudo é a nobreza dos músicos, que não é diminuída pelo ambiente. Ao contrário, é o recinto que se enobrece com a humildade cativante deles todos, cada qual merecedor de récita e coro sinfônico, cada qual generoso no talento que sobeja.

Parabéns ao gerente que percebeu esta surpreendente brecha entre a sociedade de consumo e a tradição seresteira destas paragens! Parabéns à gente belorizontina, pelos semblantes recuperados, humanizados, ternos, desta manhã de sábado! Parabéns, enfim, aos prestidigitadores musicais, inventores desta nova prática matinal de beleza.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

JOSUÉ DE CASTRO - DE COMO VEM SENDO INJUSTIÇADO ESTE HERÓI DA MEDICINA BRASILEIRA
João Amílcar Salgado
Em setembro de 1998, visitei o Memorial da Medicina da Universidade Federal de Pernambuco, que estava sendo inaugurado no Casarão do Derby, antiga sede da primeira Faculdade pernambucana. Ali foi organizado rico acervo, antes acumulado no Hospital Pedro II e datado desde os primeiros anos do Brasil. Depois de elogiar o conjunto da exposição e especialmente o realce de alguns aspectos, cobrei dos anfitriões a mínima referencia a Josué de Castro. Fui informado de que no repertório do que foi recolhido nada havia sobre ele e que a partir de então seria providenciado ativamente o que fosse possível. Mesmo no riquíssimo acervo do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, fundado em 1977, onde nos orgulhamos de preservar os livros pernambucanos de Mourão, Rosa, Pimenta, Guilherme Piso, Otávio de Freitas, Leduar Rocha, Nelson Chaves, Valdemar de Oliveira, Orlando Paraim, Luiz Carlos Diniz e outros, também não tínhamos até recentemente os livros de Josué de Castro. Isso significa que o anátema ditatorial de que foi vítima foi particularmente eficaz em quase apagar seu nome da memória médica nacional.
Dessa vergonhosa injustiça tive notícia percebida de fora de nosso país em 1979. Nesse ano houve um congresso sobre ensino médico na cidade de Puebla, no México. Um professor peruano, cujo nome infelizmente não anotei, pediu minha opinião sobre Josué de Castro. Quando declarei admirá-lo desde os bancos acadêmicos, meu interlocutor se animou em revelar sua amizade pessoal ao brasileiro. E descreveu-me com lágrimas nos olhos a angustia de Josué temeroso de falecer longe da pátria. E nós dois afinal concordamos em que a perversidade de impedir seu regresso para morrer aqui deve ser assinalada para a posteridade tão firmemente quanto o brilho inapagável com que viveu.
Relatei-lhe a seguir a objeção de Baeta Viana às idéias de Josué de Castro E o fiz como integrante da escola clínica derivada de Viana. Mesmo reconhecendo os méritos desse líder científico, não poderia honestamente deixar de atribuir-lhe considerável influência na sonegação do prêmio Nobel a Josué de Castro. E o pior é que posso ter contribuído, eu próprio, para acirrar as objeções de Baeta a Castro. De fato, estávamos em 1956 e colhíamos entusiástico abaixo-assinado em favor do prêmio Nobel a Josué de Castro. Considerando a projeção de Baeta Viana na ciência brasileira, ingenuamente pensávamos que seu apoio seria valiosíssimo. Quando pedimos que subscrevesse o documento, ele não apenas negou como nos fez uma preleção para provar que os textos de Josué continham grave impropriedade bioquímica. Era a afirmação de que a fome aumenta a prole, o que seria impossível do ponto de vista da química das proteínas. E cada aula seguinte era precedida de introdução demolidora contra Josué de Castro. Em defesa deste, espicaçávamos o Baeta com dados de peso contrários à sua argumentação, trazidos da rica biblioteca que ele mesmo criara. Chegou a indignar-se quando observamos que sua posição certamente advinha de que os livros de Josué eram contundentes contra o eugenismo tendencioso cultivado nos EUA e na Alemanha nazista. Noutro dia argumentei que suas objeções pareciam vir mais de Aristóteles do que de Francis Bacon, pois, sendo de natureza apenas lógica, eram destituídas de dados numéricos experimentais. Colhido assim, ele reagiu com um de seus raros sorrisos, mas sua posição se manteve a mesma.
Mais tarde, concluí que a oposição de Viana foi muito mais significativa, indo além da força de sua assinatura. Isso pela enorme influência que ele desfrutava na SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA, da qual era co-fundador e da qual foi dirigente por mais de um mandato. Ali ele era ouvido como a um papa e não como a um cientista. O tempo provou que Josué estava certo, mas a censura de que foi vítima não ficou restrita àquela época. A ditadura militar de 1964 a reafirmou e a pretendeu definitiva. Hoje, o prolongamento de tal anátema em pleno regime democrático, passa a ser mais odioso ainda. Sem dúvida é tão inaceitável quanto omitir seus autores atuais, que devemos denunciar. Mesmo quando a China atropela o noticiário diário, em virtude de seu espantoso crescimento econômico e do impressionante desempenho organizacional, estético e esportivo nas Olimpíadas de 2008 – verifica-se que o centenário de Josué de Castro não é lembrado, logo ele que expôs ao mundo as entranhas e as múltiplas dimensões desse gigante real, que o Ocidente espezinhou e quis ignorar. Insisto: afinal, de onde vem a censura póstuma a Josué de Castro? Meu dedo neste caso se volta para apontar gente supostamente intocável no Brasil de hoje: são os auto-designados cientistas políticos.
São atores (ou melhor, prestidigitadores) fundamentais na ação coordenada pelos interesses neo-liberais mais escusos. A trama envolve, além deles, os jornalistas da chamada grande imprensa e os publicitários. São personagens inventadas pela inteligente iniciativa da Fundação Ford de criar, nas universidades da América Latina, os chamados DEPARTAMENTOS DE CIÊNCIA POLÍTICA, na década de 60 do século 20, como resposta à agitação estudantil mundial que culminou em 1968. A estratégia consistiu em usar tais departamentos para atrair formadores de opinião originariamente esquerdistas, de modo a que se deslocassem rumo à centro-direita e à direita, coerentemente com o fenômeno da globalização. Os líderes mais promissores foram levados a Santiago do Chile e, conforme o caso, aos EUA. O processo de amansamento dos ativistas foi reforçado durante os prolongados governos Reagan e Thatcher e pelo colapso da União Soviética. Afinal o objetivo daquela Fundação foi alcançado, com resultados bem maiores do que os esperados, na medida em que os novos entes forjados por ela, os chamados cientistas políticos, passaram a saturar a comunicação coletiva, na condição de consagrados gurus de jornalistas (dos âncoras aos focas), de publicitários e de profissionais de Historia e de Ciências Sociais. No Brasil a coisa foi mais longe ainda, quando um deles, Henrique Cardoso, foi guindado, também prolongadamente, a Presidente da República.
Vale lembrar que no dia-a-dia, quando percebem ser inevitável focalizar alguém, mas não é seu interesse enfatizar o respectivo lado ideológico - por exemplo, figuras ainda em vida como Betinho, Niemeyer, Florestan Fernandes, Helio Pelegrino, Antônio Candido, Sérgio Buarque, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Leonardo Boff - a ordem é realçar o talento apesar do ranço ideológico. Mas, quando é possível uma censura completa ou quase completa, como no caso de Josué de Castro, esta é feita sem pudor ou piedade, infringindo-lhe dupla morte. Sim, o povo brasileiro é refém de uma comunicação coletiva insensivelmente tendenciosa, cinicamente mendaz e transudante de preconceitos por todos os poros. São tão unânimes, em seu conluio desinformativo que, quando se ouve um deles e, a seguir, o aparente outro, é como ouvir porta-vozes uníssonos do primeiro mundo. Em outras palavras, comportam-se não como latino-americanos ou brasileiros, mas como ianques e, mais que isso, como ianques militantes do Partido Republicano.
Aproveito para implorar-lhes que despertem por conta própria pelo menos desse tremendo ridículo de se auto-designarem cientistas políticos. Se os verdadeiros cientistas se constrangem quando são chamados de cientistas e, sempre que podem, aceitam a contragosto serem chamados de pesquisadores – que palhaçada é essa da insistência no ranço dessa auto-denominação monstrenga? Diante disso tudo, Josué de Castro não tem a menor chance de ser lembrado condignamente em seu centenário. E este herói da medicina brasileira deverá aguardar as comemorações de seu bicentenário, para que lhe sejam tributadas todas as homenagens, em honra de seus méritos incontestes. E ficará para nós poucos e as gerações futuras o profundo lamento por tão clamorosa e tão infidável injustiça.

O autor é professor titular de Clínica Médica e pesquisador em História da Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais