domingo, 20 de março de 2011


A VISITA DE MARIA E IRENE CURIE A BELO HORIZONTE EM 1926

João Amílcar Salgado

Em 1926, a polonesa Manya Sklodowska Curie (Madame Curie) havia recebido dois prêmios Nobel. O primeiro de física, em 1903, com o marido Pierre e com Henri Becquerel, pela descoberta da radiatividade, e o segundo, de química, em 1911, pela descoberta do metal radiativo radium. Neste ano, fazia 20 anos que enviuvara pelo atropelamento de Pierre e sua filha francesa Irene ainda não havia recebido seu prêmio Nobel de química, junto com o marido Frederico Joliot, com quem se casaria neste mesmo ano de 1926. Recebeu-o oito anos depois, pela descoberta do primeiro isótopo artificial. Ambas chegaram de trem a Belo Horizonte em agosto desse ano e vieram acompanhadas da paulista Carlota Pereira de Queiroz, uma das pioneiras feministas no Brasil, eleita em 1933 a primeira mulher deputada federal brasileira. Tiveram o privilégio de ouvi-las, na Faculdade, os quintanistas de medicina Pedro Nava, Pedro Sales e Juscelino Kubistchek, o terceiranista Amílcar Martins, o segundanista João Guimarães Rosa e o primeiranista Osvaldo G. Costa – todos futuros famosos ex-alunos.

A razão da presença das cientistas era o Instituto do Radium. Belo Horizonte fora escolhida para sediá-lo no Brasil, como primeiro das Américas e parte da rede internacional de institutos dedicados ao uso e ao estudo do radium em medicina. A escolha se explica pelo relacionamento de seu realizador Borges da Costa (um dos fundadores da primeira escola médica mineira, acima referida, hoje da UFMG, e um dos pioneiros da moderna cirurgia em Minas) com os centros médicos da Europa, especialmente na França. Sua inauguração foi prevista para o centenário da Independência (com 25 centigramas de radium), mas coincidiu também com a chegada da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. A Bélgica era o único fornecedor do radium, graças às minas de urânio de Katanga no então Congo Belga. Curiosamente, Artur Bernardes, que, com Barbosa Lima Sobrinho, forma a dupla de maiores nacionalistas brasileiros, apoiou a construção e esteve presente na inauguração do Instituto. A maquete deste, mostrando notável arquitetura, foi levada a Estrasburgo no centenário de Pasteur. Desta cidade viria, depois das Curies, o grande cirurgião René Leriche, para cirurgias demonstrativas no Instituto.

Integravam a equipe do Instituto que recebeu as cientistas: Baeta Viana, em vias de criar a maior escola de bioquímica da América Latina; Mário Pena, o primeiro curieterapêuta do país; e Carlos Pinheiro Chagas (primo do descobridor Carlos Ribeiro Chagas), patologista que brilhara como aluno de McCallum na Universidade de Colúmbia, EUA, mas que se fez célebre como orador no sepultamento de João Pessoa, no início da Revolução de 30.

Enquanto o Instituto do Radium (hoje Borges da Costa), a visita das Curies e Costa representavam forte ligação de Minas com a França, Luxemburgo e a Bélgica, em nome da nova tecnologia - um mineiro de Juiz de Fora, Antônio da Silva Melo, seria o nexo entre Minas e o Instituto do Radium de Berlim, onde participou dos estudos - no contexto da competição franco-germânica – que delimitaram os riscos da nova terapia.

sábado, 19 de março de 2011


JK E A CONTRABUCHA PASSAQUATRENSE

João Amílcar Salgado

BUCHA foi termo corrente entre os estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo no final do século 19. É a corruptela de BURSCHENSCHAFT, designação de irmandade estudantil criada na Universidade de Iena, em 1815, em prol da unificação alemã. A burschenschaft brasileira lutava pela república e vários de seus integrantes eram parentes entre si, por troncos bandeirantes comuns a São Paulo e Minas Gerais. A Faculdade de Medicina de São Paulo, inaugurada em 1913, teve sua bucha tardia, e a organização comparável na Faculdade de Belo Horizonte, hoje da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), anterior à paulista (1911), pode ser identificada no grupo da revista RADIUM, mas cuja pretensão parecia apenas literária e científica.

A bucha evoluiu, após a graduação dos estudantes de direito, para uma espécie de clube de políticos ansiosos por dirigir o país, tanto que vários de seus seguidores já estavam no poder mesmo antes da queda da monarquia. Em posições estratégicas, foram decisivos para a proclamação do novo regime. A articulação bem sucedida se prolongou até a revolução de 1930, por meio da política do café-com-leite, acordo de alternância entre bucheiros de São Paulo e de Minas na presidência.

Nesta perspectiva, a revolução de 30 foi uma frente anti-bucha. Só a partir de 32, já em contexto getulista, surgiria uma articulação correspondente àquela derrotada, para a qual propus a designação de contra-bucha (in ORIGEM E EVOLUÇÃO PEDAGÓGICA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UFMG, FMUFMG:.Belo Horizonte, 2001). A evidência desta é fácil de verificar, se se analisa a biografia dos líderes reunidos na cidade de Passa Quatro para enfrentar os paulistas. Dois se tornaram presidentes: Eurico Dutra e Juscelino Kubistschek (JK). Quatro governaram estados: Ernesto Dorneles, o Rio Grande do Sul, Benedito Valadares, Minas Gerais, Zacarias Assunção, o Pará, e o próprio JK, também Minas Gerais. Dois se tornaram reitores: Pedro Penido e Otaviano de Almeida, este duas vezes.

Dois ex-alunos e um professor da Faculdade de Medicina da atual UFMG compõem esta relação: JK, médico da turma de 1927, Valadares, formado no fugaz curso de odontologia da mesma faculdade, em 1915, e Almeida, farmacêutico, médico, docente, organizador dos serviços médicos de campanha, apaziguador da vida acadêmica e mestre de JK.

Os estudantes de medicina apoiaram o movimento de 30, a ponto de um deles ser morto (José Ferreira Viana) e outro sofrer seqüela definitiva (Paulo de Castro Miranda), no incidente que envolveu o reitor Mendes Pimentel. Mas, em 32, já estavam do lado paulista, entrincheirados em frente à faculdade. Almeida, como médico da polícia, foi o herói que impediu o pior - partindo a seguir para Passa Quatro. Ao voltar, veio a ser reitor, para restabelecer a normalidade na universidade. A faculdade de medicina permaneceu foco anti-getulista e a pregação do professor Baeta Viana, ídolo dos estudantes, foi importante fator na queda da ditadura. A própria presença dele como reitor da fugaz Universidade do Distrito Federal antes pesara no desfecho do golpe de 1937.

Os ex-estudantes da época e os estudantes e médicos posteriores se mantiveram majoritariamente anti-getulistas, anti-valadaristas e anti-juscelinistas, a ponto de virtualmente terem expulso JK da Associação Médica. Apenas no final de seu governo é que houve reconciliação parcial, quando o presidente foi recebido festivamente para a aula magna do ano letivo de 1960. A avaliação isenta de JK como médico e governante só foi feita, entre historiadores médicos, após a criação do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, na mesma UFMG, em 1978, culminando com a recente publicação do livro de Fernando Araújo, JUSCELINO KUBISTSCHEK, O MÉDICO (2000).

Os historiadores em geral, interessados no fenômeno da contra-bucha passaquatrense, nas razões mineiras da oposição à ditadura Vargas e na história das universidades brasileiras, terão no livro de Araújo referência preciosa.

TEMA LIVRE APRESENTADO AO 6O CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA MEDICINA. BARBACENA, MG, 14-16/06/2001

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

CONTRA O SAQUE AO ACERVO ARTÍSTICO E HISTÓRICO DE MINAS GERAIS – NOSSO CLAMOR JÁ DURA SETE ANOS

João Amílcar Salgado

Neste dia 10-2-11, os jornais noticiam o prosseguimento do alarmante saque do acervo artístico e histórico de Minas Gerais - deixando entrever a atitude amena dos responsáveis pelo combate a tão irreparável dano. Neste ano do centenário da FACULDADE DE MEDICINA DA UFMG, ressaltamos nossa luta pela memória das coisas mineiras - das ciencias às artes - sem esquecermos que esta mesma Faculdade foi vítima da demolição de seu belo prédio, em 1958.

O CENTRO DE MEMÓRIA DA MEDICINA DE MINAS GERAIS, depois de 30 anos de presença ativa no cenário mineiro e brasileiro, durante a qual levou à criação de diversas instituiçoes congêneres dentro e fora do Estado, acumulou crédito suficiente para ser a voz mais alta capaz de gritar contra o contínuo saque ao acervo artístico e histórico de Minas. Este Centro reune o mais isento grupo de interessados na cultura mineira e tal independência o desvincula de qualquer compromisso exceto o bem de nossa arte e nossa memória. Desde 2004 seus membros se lançaram à luta desigual contra tal crime. Durante todo esse tempo estamos cada vez mais indignados com a passividade com que as autoridades e instituições responsáveis, as organizações afins e muitos mineiros cultos presenciam tão vergonhosa e ininterrupta dilapidação.

A triste crônica de tal agressão não deixa dúvida de que a ostensiva impunidade quer dos saqueadores, quer dos cúmplices locais, é responsável por sua perpetração contínua e crescente. Os zeladores maiores a quem deveria caber o mais desvelado cuidado vêm demonstrando tal e tão cínica inércia ao longo do tempo que lhes cabe clara parcela de cumplicidade. Tamanha vilania brada por medidas objetivas e eficazes e, por meio deste protesto, estamos desafiando aqueles que até aqui se vêem mantendo omissos, negligentes e calados que dêem às futuras gerações uma resposta condigna. E que esta esteja à altura do incomensurável patrimônio atingido, que soma à insubstituível porção já dilapidada a valiosíssima fração que resta em flagrante perigo.

As tímidas medidas, esboçadas de tempos em tempos, são claras evidências de que a complacência para com os criminosos prosseguirá. Tratá-los como meros contraventores, em vez de autores de gravíssimo crime, é o pior sinal. Chamar eufemisticamente o traficante de marchand e o receptador de colecionador é a contraprova da cumplicidade oficial. Reduzir o conjunto desejável de medidas enérgicas à conscientização das pessoas é flagrante ingenuidade, principalmente agora quando medidas eficazes em favor do turismo cultural e ecológico estão em andamento. Apoiamos plenamente tanto o turismo como tudo que vise à consciência coletiva do valor de nossos bens históricos, artísticos e paisagísticos. Mas isso não dispensa e, ao contrário, exige a vigilância cada vez mais sofisticada dos mesmos, pois sua exposição estará multiplicada tanto quanto a cobiça sobre eles, com o inevitável uso de métodos criminosos peculiares ao crime organizado. Os saqueadores são imunes à conscientização e só são contidos pela certeza de que a impunidade será substituída por punições severas e incontornáveis.

Em relação às obras de Aleijadinho ou de artistas de mesmo nível, a lei já deveria ter proibido a comercialização, com seu imediato recolhimento aos museus públicos mineiros. O catálogo com minuciosa descrição de cada uma, mesmo das de autenticidade duvidosa, deveria ser de elaboração oficial, estar na internete e sem o anonimato dos atuais depositários. Assim como a televisão e a demais imprensa divulga telefones para devolução voluntária de peças desviadas, os atuais depositários deveriam receber prazo para a entrega ao governo de seus aleijadinhos e congêneres. Os profetas de Congonhas já deveriam ter sido resguardados contra qualquer deterioração e isso já deveria ter sido realizado desde quando foram feitos os moldes ora recolhidos à UFMG. Os ingênuos contrários a tais medidas e os que se opõem a elas por razões escusas devem sair das sombras e aparecer para a conversa franca, pois dispomos de toda informação técnica e contamos com o apoio dos mais autorizados e neutros especialistas A posição dos governos federal, estadual e municipais também deve ser exposta às claras.

Trair os interesses da cultura mineira com medidas de marketing, que encubram providências firmes e efetivas, é crime tão grave quanto aquele que fingem combater. Até aqui, tecnocratas da cultura, historiadores, mestrandos, doutorandos e consulentes em geral não sofrem qualquer controle e foi inevitável que começassem a aparecer nos noticiários como membros de quadrilhas capazes não só de saquear bens mas de sua danificação irreversível. O esbulho de bens culturais é terrivelmente semelhante à devastação de nossas florestas, ou seja, encontram-se submetidos à mais cruel e sórdida das tolerâncias.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011


EM MEIO A MEGA-DESASTRES, NAVEGA NOSSA NAU DOS INSENSATOS, COM A SAÚDE E A EDUCAÇÃO A BORDO

João Amílcar Salgado

Quanto mais bem sucedido vem sendo o atual governo na melhoria da distribuição de renda no país, mais escandaloso é seu fracasso em saúde e educação. Em meio a mega-desastres aéreos e à violência crescente, ninguém está dedicando atenção a nosso risco como passageiros desta verdadeira nau dos insensatos, capitaneada pelos ministros da saúde e da educação.

É ledo engano pensar que uma boa notícia, como o anúncio do pré-sal ou o reconhecimento do BRIC, seja capaz de compensar a derrocada na saúde e na educação. Tais boas-novas desviam a atenção, anestesia dores menores, produz refresco breve – mas as duas feridas largas e profundas, da saúde e da educação, prosseguem subsistentes. Já as más notícias, principalmente a péssima notícia, como de três mega-desastres aéreos recentes ou da violência endemo-pandêmica, podem aprofundar a anestesia, mas seu efeito é igualmente temporário.

E os próprios respectivos setores governamentais se encarregam de reacender, rápido, o ferro-em-brasa da débâcle na educação e na saúde. Isso acontece quando, de modo trapalhão, tentam melhorar as coisas, mas acabam piorando tudo e fazendo tudo ficar irreversível. Por exemplo, no hemisfério norte, tenta-se responder ao craque imobiliário com duras medidas não só contra a farra de contas em paraísos fiscais, de lucros, de salários e de spreads, mas também contra a cultura da irresponsabilidade ou contra os dispositivos controladores cevados na promiscuidade explícita com os controlados. Enquanto isso, aqui tudo prossegue como-dantes-no-quartel-de-abrantes – com farra análoga, só que maior, com a mesma cultura, só que ao jeitinho brasileiro, e com igual promiscuidade, só que muito mais cínica.

Na educação, acabam de transformar o ENEM (herança maldita do fiasco do provão) num arremedo de “exame vestibular nacional”, no qual qualquer cultor do óbvio é capaz de reconhecer autêntico vôo-cego de aprendizes-de-feiticeiro. Este pseudo-vestibular nacional, chega para ser um requinte a mais na desbragada mercantilização do ensino superior. Nesta se inclui a imensa insensatez da explosão de faculdades picaretas de medicina, e, para maior horror, o vergonhoso colapso do ensino público pré-universitário, estando as nossas antigas escolas primárias à mercê de gangues de pivetes e de livros didáticos alegremente obscenos. Intrínseco a isso, no ensino superior público, o mencionado neo-liberalismo farrista causou e causa o sucateamento físico, docente e moral das universidades - sendo este último só agora noticiado, com vários reitores deslocados, na mídia, das páginas de ciência para as páginas policiais. E, para coroar o descalabro, assistimos atônitos à avassaladora aventura do ensino-à-distância, com todo seu claríssimo potencial de fraude e corrupção. Tanto este como o ENEM e o ENADE estão sendo empurrados goela-abaixo das universidades públicas, a poder de coação e até de chantagem.

Na saúde, somos obrigados a assistir deprimente competição diária por estacionamento, quando as ambulâncias municipais, recém-chegadas de cada cidade do Estado, disputam espaço para descarregar casos não-resolvidos no Hospital das Clínicas. Na outra ponta, nos postos de saúde metropolitanos, prossegue, a cada minuto, o confrangedor desfile de dor, pranto, morte e tumulto nas filas de atendimento. Ao mesmo tempo, os “planos de saúde”, que não são planos e nem são de saúde, faturam milhões e milhões. E não constituem nenhuma assistência suplementar ao SUS, mas sim dispositivos de fato complementares, que estão aderidos ao SUS num abraço letal. Os assessores ministeriais, arrasados por tanta incompetência, paradoxalmente se animam diante das últimas ameaças de epidemia ou se assanham no afã de uma campanha contra isso ou aquilo - na esperança de poder parecer que, pelo menos nesta ou naquela questão conjuntural, se estão saindo bem ou menos mal (mas estão muito mal nos escândalos cumulativos do tamiflu restrito a grupo de risco, do atraso da vacina antigripal e do diagnóstico específico da gripe suína limitado a três centros). Ou então anunciam, como se fosse grande achado inovador, a proibição da auto-medicação com elixir paregórico, com formol ou com antibióticos ou ainda do banho ultravioleta, escondendo do público que qualquer restrição à cobiça infinita da industria de saúde é feita de comum acordo com ela própria, sob a alegação neoliberal de procurar não ofender o mercado.

E, para fechar com chave-de-ouro esse tour maldito de insensatezes, se aferram, com cega obstinação, àquilo que considero a maior cara-de-pau da histórica da medicina. É quando fazem o alerta solene de que, caso algo dê errado, caso o problema persista, que o cidadão procure um médico. De preferência um médico despreparado, formado numa faculdade picareta, que eles próprios acabaram de autorizar

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E O MINISTRO NÃO RENUNCIOU!

O principal do texto acima saiu em meu blogue (jamilcarsalgado.blogspot.com) em 22 de junho de 2009. Diante do que está dito aí, os amigos perguntaram: se isso é fato, será que vai estourar algum escândalo produzido por tanta insensatez? E não é que, no dia 1º de outubro de 2009, a imprensa denuncia a fraude do ENEM, levando à suspensão do pretenso vestibular? A partir daí recebi muitos cumprimentos (sem qualquer alegria minha) pela profecia de junho. Mas o maior escândalo não é a fraude. O maior escândalo é que o MINISTRO NÃO RENUNCIOU. E continua a se exibir na mídia como se a coisa nada tenha a ver com ele! E NINGUÉM ESTÁ EXIGINDO A SUA RENUNCIA!

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O texto acima foi postado em novembro de 2009. Já estamos no Governo Dilma, a quem apoiei, mais por pavor do FHC & Cia. E, logo depois da posse, ela fraqueja em não demitir Hadad. Neste momento há na TV dois noticiários. Um deles é a continuidade dos megadesastres, com enchentes, avalanches e tornado. O outro é a continuidade da confusão cada vez maior com o ENEM. E o ministro Hadad permanece impávido. Para dar satisfação aos menos inteligentes, teve o despudor de demitir um de seus auxiliares, como se isso o dispensasse de renunciar! Dilma, você demitiu o Temporão. Aguardamos que complete o saneamento da nau dos insensatos!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011


WILSON LUIZ ABRANTES

A culminância sinfônica da cirurgia


João Amílcar Salgado

Wilson Abrantes diplomou-se em medicina em 1956 pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e bem antes da formatura já se salientava na clínica cirúrgica criada por Eduardo Borges da Costa, um dos fundadores da faculdade. A cirurgia moderna - aquela decorrente da descoberta da microbiologia e da anestesia - foi introduzida em Minas a partir de três cidades: em Juiz de Fora pelo mineiro Hermenegildo Vilaça, em Belo Horizonte pelo carioca Borges da Costa e em Itamarandiba pelo francês Afonso Pavie.

A escola cirúrgica criada por Costa, das três, foi a que teve, desde o início, o caráter universitário. Demais, viveu dois momentos históricos. Deslocou-se da Santa Casa de Belo Horizonte a Paris, onde, no final da primeira guerra mundial, causou excelente impressão, ao executar cirurgias de guerra no Hospital Necquer (cognominado bresilien). Depois, se instalou, em 1922, no novíssimo Instituto do Radium (hoje Hospital Borges da Costa), onde, circundada por cientistas como, entre outros, o bioquímico Baeta Viana e o patologista Carlos Pinheiro Chagas, passou a aperfeiçoar um modo de operar que harmonizava rapidez, precisão e elegância, o qual se prolonga até os dias atuais. Assim, a elegância, a precisão e a agilidade, admiradas hoje em Abrantes por quantos colegas acompanham sua atividade profissional, não são mais do que a culminância sinfônica, feita de talento e competência, apurada ao longo da invejável tradição desta aristocrática corrente da cirurgia mineira.

Em meu livro de memórias, O RISO DOURADO DA VILA, descrevo o então estudante Wilson Abrantes, quando auxiliava uma cirurgia: No ano de 1956, o primeiro pavilhão do Hospital das Clínicas estava novinho em folha e ali, como já mencionado, tive de ser operado de varicocele. O doutor Emílio Castelar, ... ... pessoa queridíssima de todos nós, sugeriu ... ... o cirurgião Haroldo Pereira, compridão, óculos fundo de garrafa, sério. Será que ele vai enxergar direito, e se a máscara embaçar a lente e ele errar minha veia ou me castrar? A anestesia foi raquiana e, graças a ela, assisti toda a movimentação da equipe, famosa por sua rapidez e elegância. ... ... ... O Zé Elísio (Correia Lima) que era interno de clínica médica esteve na sala cirúrgica o tempo todo contando causos. O primeiro auxiliar foi o interno de clínica cirúrgica Wilson Abrantes, que a toda hora comentava com o Haroldo a técnica usada: a operação de Ivanissevich (apesar do nome, este era argentino, que a propôs em 1923). O Zé e o Wilson vieram a ser respectivamente consagrado anestesista e célebre cirurgião, grandes amigos meus pela vida afora.

Antes que minha turma se formasse, tivemos a especial sorte de ser alunos do recém-graduado Wilson Abrantes. Os refinados cirurgiões que, modéstia à parte, surgiram de tal privilegiado grupo, como Sérgio de Almeida, Geraldo Coutinho, Sílvio Ribeiro, Rui Esteves Pereira, Dilair de Faria, Luiz Antônio Luciano, Jairo Guerra, Marcos Vinícius Aguillar, Orion Alvarez, Marcelo Ferreira, Ernesto Lentz e Gilberto Lino ficaram definitivamente marcados por sua saudável influência. Os dois últimos, em especial, pois foram como que residentes dele. Era natural, pois, que esse docente, ainda tão novato e já tão destacado nesta função, fosse homenageado na formatura, da qual tive a honra de ser o orador.

Um horrendo pecado foi então cometido pela direção da faculdade e da universidade. Privaram-se a si mesmas do brilho daquele raríssimo profissional que haviam graduado. E esse homem que nasceu para ensinar foi criminosamente proibido de continuar docente. Mas sua vocação de professor era tão grande que ele, em vez de se abater, tanto fez que encontrou não outro mas outros meios de prosseguir ensinando pelo anos em fora, semeando competências e admiradores por Minas e pelo Brasil.

Finalmente, mais de quarenta anos depois, a faculdade e a universidade se retratam e lhe reconhecem todos os méritos de que é credor. E lhe concedem a distinção tributada aos egressos que mais ilustram a alma mater. A propósito de tal galardão, quero fazer quatro registros que, a partir de agora, desejo que sejam do conhecimento de todos.

Wilson Abrantes passou a exercer no Pronto Socorro (hoje Hospital João 23) a docência que lhe foi negada na faculdade. As demais equipes de plantonistas se pautaram pela requisitada equipe liderada por ele, de tal modo que gerações de médicos lhe devem esta pedagogia inestimável. E isso era tão patente que a faculdade, ao fazer a notória reforma curricular de 1975, formalizou o informal estágio no Pronto-Socorro, sob a forma de disciplina obrigatória. E foi assim que ele retribuiu, com generosa contribuição, a injustiça de que foi vítima.

O mas significativo é que a retribuição se deu não só no fato em si, mas como origem do CONCEITO PEDAGÓGICO DE CURRÍCULO PARALELO OU CLANDESTINO, ou seja, aquele currículo desenvolvido extramuralmente pelo aluno, na busca desesperada para conseguir fora o treinamento que lhe é negado dentro da escola. E é notável que a concepção se inspira naquele que buscou exercer fora o ensino que lhe foi negado dentro da escola! Em 1986 tive a oportunidade de expor a idéia e o fenômeno de currículo paralelo ou clandestino em universidades dos EUA. Um conceituado especialista em ensino médico me aparteou dizendo que este conceito era o instrumento de análise mais interessante ouvido por ele nos últimos tempos. E eu lhe respondi que era, em grande parte, resultado de reflexões sobre tremenda injustiça cometida contra um notável médico de meu país.

E isso não ficou por aí, pois tal inspiração levou a um conceito mais amplo, o de UNIVERSIDADE PARALELA. De fato, quando meu colega Cid Veloso foi candidato a reitor, incluí em sua plataforma a proposta de criar a Universidade Paralela da UFMG, que nada mais é que trazer ao público interno e externo de nossa universidade aqueles, como Wilson Abrantes, que jamais deveriam estar fora dela. Nisso incluiríamos uma gama enorme de gente, inclusive da cultura popular. Infelizmente não foi possível concretizar essa idéia, cujo único remanescente é esta premiação que ora se dá. Além disso, temos no Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais uma miniatura de como seria a coisa, pois ali historiadores, estudiosos e interessados, não pertencentes ao corpo docente, comungam com este, sem discriminação, o grato prazer de dialogar com a juventude.

Se fui paciente do ainda estudante Wilson Abrantes, também testemunhei uma das últimas de suas inúmeras façanhas cirúrgicas enquanto ainda docente. Quarenta crianças abandonadas só tinham por elas no mundo dona Conceição Fernandes, que nada tinha de seu exceto a saúde. Pois bem, um tumor gástrico foi diagnosticado na extraordinária mãe adotiva. Eu disse ao cirurgião que da perícia dele, diante daquela lesão inicial (endoscopica e histologicamente identificada), dependia o futuro dos meninos. E acompanhei, com surpresa e crescente admiração, por mais de duas décadas, a sobrevida assintomática daquela magnífica benfeitora.

Finalmente, quero salientar um traço desse mestre unânime do qual são testemunhas seus numerosos ex-residentes: é o uso do humor como instrumento didático. Esta é uma tradição mineira e de nossa faculdade, cultivada do Ângelo Machado ao Osvaldo Costa, e que no Abrantes adquiriu peculiaridades deliciosas. Trata-se de uma das marcas de sua grandeza, pois, em vez de travo amargo ou lamuriento, retribui com ensinamento e riso a supressão inominável da metade irredutível de sua vocação, a de professor. Daí a frase tão verdadeira que me proferiu emocionado: João, eu saí da escola, mas a escola não saiu de mim.

O autor é professor titular de Clínica Médica e pesquisador em História da Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais

sábado, 18 de dezembro de 2010

A SAÚDE E A EDUCAÇÃO NO GOVERNO DILMA

João Amílcar Salgado

O ministro da saúde Temporão e o ministro da educação Hadad do governo Lula – por terem sido tão trapalhões em áreas tão sérias - deveriam ser substituídos por gente mais competente, no novo governo Dilma. De todo o ministério, são os dois mais difíceis de substituir, pois – por mais trapalhões que tenham sido – se mostraram ambos muito bem acomodados aos interesses mercantis ligados tanto à saúde como à educação.

Aos estrategistas de Dilma, a questão desde cedo foi a seguinte: é necessário substituir os dois, mas como encontrar dois substitutos que - no afã de serem menos trapalhões - não acarretem o risco de contrariar os interesses mercantis ligados à saúde e à educação, de tal modo que acabem engendrando duas crises graves no início de um governo, cuja prioridade é transparecer paz e amor?

A partir da ditadura 64-84, os sucessivos governos cevaram seis monstros, que passaram a ser monstros quando perceberam que estavam sendo tratados ou com incompetência, ou com medo ou com promiscuidade ou com a mistura de tudo isso. São as indústrias do pré-pagamento em saúde, do ensino mega-lucrativo, do narcotráfico, da corrupção nos três poderes, do sistema bancário e do desmatamento – que são seis indústrias freqüentemente sócias umas das outras.

No caso da saúde, a incompatibilidade de um sistema único com um PARA-SISTEMA PSEUDO-SUPLEMENTAR, mas que de fato é COMPLEMENTAR, exigiria um ministro-estadista, acompanhado de equipe de mesmo nível, encarregado de solucionar tão gigantesca aberração institucional, com mega-interesses já fortemente estabelecidos.

No caso da educação, está clara a incompatibilidade entre, de um lado, a busca obsessiva em criar um sistema de avaliação educacional, ostensivamente apenas quantitativo, e, de outro lado, a avidez por uma educação de verdade, inescapavelmente qualitativa, manifestada por camadas cada vez maiores da gigantesca população recém-incluída na renda nacional. Isso exigiria bem mais do que um simples Hadad, à frente de equipe mil vezes melhor. A compatibilidade da MÁQUINA DE AVALIAR com O QUÊ AVALIAR seria menos difícil há trinta anos, mas hoje, com os mega-interesses da indústria-do-lucro-fácil em educação, a tarefa é também para estadista. Quem correria esse risco?

Sobre os quatro outros monstros algo semelhante poderíamos dizer. Em vez de falar sobre eles, quero relembrar aqui o texto SAÚDE E EDUCAÇÃO NO GOVERNO LULA que publiquei no tablóide CAROS AMIGOS, por ocasião da posse de Lula em seu primeiro governo:

“Depois de três meses do início de seu governo [março de 2003], Lula vai fazer cinco perguntas a seu ministro da saúde e cinco perguntas a seu ministro da educação.

Ao da saúde:

1. O dinheiro da saúde continua escasso e sendo gasto para remunerar mal os que se esforçam para manter os doentes em pé, enquanto sobra para remunerar bem os que lucram com seu decúbito – e apenas com o decúbito lucrativo?

2. O atendimento oferecido no nível periférico continua sem avaliação ou com avaliação apenas quantitativa? Se continua assim, quando haverá o rigor desejável em verificar a resolubilidade de cada nível, sem distinção?

3. A Constituição continua sendo desrespeitada em relação aos chamados planos de saúde, ou seja, continuam legitimados pelo cínico artifício de chamá-los de planos e, pior, de planos de saúde, e, pior ainda, de assistência complementar?

4. O controle social do atendimento continua sendo usurpado por ilegítimo colegiado de secretários, em detrimento dos conselhos municipais, estaduais e nacional, reorganizados com a representação desta vez legítima?

5. As denúncias de desatendimento e de escândalos continuam sendo amenizadas ou apagadas do noticiário pelo recurso a artifícios de marketing, custeado pelo orçamento da própria saúde?

Ao ministro da educação as perguntas serão as seguintes:

1. A expansão da educação brasileira continua entregue ao gangsterismo educacional, isto é, a compreensível sede de ascensão social pela escada do diploma continua mercadejada na bacia-das-almas do enriquecimento fácil?

2. O ministro continua iludindo a gigantesca clientela escolar, fazendo parecer que avaliações de fachada são o antídoto mágico para a ostensiva falta de escrúpulos do a-sistema vigente?

3. O que restou do anterior sistema público – da pré-escola ao pós-doutorado – continua sendo tratado a pão-e-água, com vil remuneração docente, enquanto subsídios diretos e indiretos continuam sendo facilmente distribuídos a escolas privadas e a falsas instituições não-lucrativas?

4. Os conselhos municipais, estaduais e nacional continuam submetidos a obscuros critérios de barganha política, de tal modo que permanecem sob o controle dos industriais da educação?

5. As denúncias de distorções e descalabros continuam amenizadas ou apagadas do noticiário pelo uso de artifícios de marketing custeados pelo orçamento da própria educação?

Em acréscimo a essas dez perguntas, podemos formular mais uma, que muito bem representa o compromisso conjunto para com a saúde e a educação: o novo governo continua tratando mal os hospitais universitários?

O hospital universitário é o ponto culminante da solidariedade entre saúde e educação. Assim, serve como indicador ideal da seriedade com que ambas são tratadas. Para melhor explicitar tal responsabilidade, podemos desdobrar a pergunta em três questões dela derivadas: a) os hospitais universitários continuam sendo tratados como entidades pedintes, a serem atendidas com sobras ou gambiarras orçamentárias?; b) continuam objeto de jogo-de-empurra entre os dois ministérios respectivos?; e c) continuam obrigados a disputar sua renda própria no mercado distorcido e selvagem?

Tais interrogações são apropriadas e oportunas neste início de administração, porque o colorido dramático do caos diário na saúde, mais visível do que o semelhante na educação, parece apalermar os mais diligentes administradores. De fato, o custo em dor e morte é tal que mesmo a inegável competência de alguns de nossos técnicos se vê dispersa e desgastada pelo varejo de remendos a esmo. Assim, nada justifica qualquer demora na tomada de decisões corajosas e responsáveis.

SUGERIMOS AOS DOIS MINISTROS QUE TENTEM RESPONDER A ESTAS PERGUNTAS A CADA FINAL DE SEMANA” [Insisto: isso foi em março de 2003].

Diante do relatado acima, pode-se deduzir que Lula foi muito esperto em seus oito anos de governo. Avaliou a dimensão dos monstros, na época já enormes, já que foram muito bem cevados no hediondo governo FHC. Decidiu então governar pelas brechas que genialmente vislumbrou entre as poderosas patas dos mesmos. Se os contrariasse, não haveria governabilidade. Foi muito bem sucedido com essa saída. Tanto que se tornou O CARA. Acontece que deixou de herança para a Dilma os mesmos monstros, mais cevados ainda. Daí a dificuldade que ela já está tendo, especialmente na saúde e na educação - e que já ficou demonstrada na incapacidade para substituir Hadad e no medo de nomear Ciro Gomes para a Saúde.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

SOBRE A PROIBIÇÃO DA VENDA LIVRE DE ANTIBIÓTICOS - OU DE COMO PROTEGER OS QUE LUCRAM COM A AUTOMEDICAÇÃO

João Amílcar Salgado

Está em vigor desde 29/11/10 a restrição à venda de antibióticos e outros antimicrobianos (Resolução 44/10 da ANVISA), que consiste na retenção de uma via da receita médica e a anotação dos nomes do médico, do paciente e do medicamento, bem como a quantidade deste.

Tal restrição, nas circunstâncias em que é promulgada, revela a hipocrisia dos atuais responsáveis pela ANVISA

Em primeiro lugar, a venda livre de antibióticos e outros antimicrobianos já estava proibida e nada vinha acontecendo aos que, a cada dia e a cada hora, desrespeitavam o impedimento. Agora decretam uma proibição repetitiva, com pretexto de dificultar a transgressão. Ora, isso significa concordar com esta, não passando de um escape gesticulativo, equivalente a trancar uma porta já arrombada.

Em segundo lugar, nenhuma medida contra algum tipo de automedicação terá credibilidade no Brasil, enquanto a própria ANVISA autoriza genericamente a automedicação – autorização esta que é acobertada pelo silêncio cúmplice do CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, do CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA, da ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA e de demais instancias responsáveis.

Assim, a ANVISA, como agência fiscalizadora, se autodesmoraliza o tempo todo, quando, com aquela proibição específica e esta autorização contraditória, é tolerante com gravíssimo risco à saúde. E o pior é que tão grande risco decorre de criminosa indulgência para com a cobiça financeira da indústria farmacêutica. Tudo isso retrata inominável irresponsabilidade governamental.

O médico acaba arrastado, como cúmplice forçado, em tal descalabro. Para avivar os contornos do ultraje em que o médico é aí envolvido, transcrevo a denúncia contra a mais renitente das propagandas de automedicação, disseminada por todas as modalidades de mídia.

Em 16 de dezembro de 2001, submeti a seguinte denúncia ao Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais

Ilmos. Srs. Membros do Plenário do Conselho

Na qualidade de médico, professor de medicina e cidadão deste Estado de Minas Gerais, sinto-me no direito e no dever de, respeitosamente, solicitar informação a este plenário sobre anúncios publicitários que passaram a ser veiculados em nossos canais de televisão. Trata-se de propaganda de medicamentos que termina por apresentar a seguinte advertência ou equivalente: A PERSISTIREM OS SINTOMAS SEU MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO.

A menos que a automedicação já esteja tacitamente aceita pelas entidades médicas e, pior que isso, autorizada a ser incentivada por meios publicitários – solicito ser informado oficialmente quais as medidas que este Conselho tomou ou está tomando diante do fato, que suponho seja do conhecimento de cada membro deste plenário.

Pedindo desculpas pela indignação que está por trás desta solicitação, apresento os protestos de minha mais alta consideração e de minha firme confiança na preservação dos princípios fundamentais da ética de nossa profissão, acima de quaisquer interesses mercantis. Atenciosamente, João Amílcar Salgado.

Infelizmente não tive conhecimento de que esta denúncia tenha sido apreciada pelo plenário do Conselho. Com o prosseguimento impune da propaganda denunciada expressei minha indignação no III Congresso Mineiro de História da Medicina (28-30/09/06) em texto com clara advertência sobre o caos progressivo da saúde e da educação, intitulado DURAS VERDADES SOBRE SAÚDE E EDUCAÇÃO. Desse documento, o primeiro tópico traz o seguinte subtítulo: AO-PERSISTIREM-OS-SINTOMAS É UMA BOFETADA HISTÓRICA NA DIGNIDADE PROFISSIONAL DO MÉDICO.

Nele manifesto minha repulsa à dupla agressão com que somos atingidos diariamente, decorrente de ostensivo apelo à automedicação, que se completa em acintoso e cínico lembrete: ao persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado. E concluo: A vigilância sanitária, os ministérios da saúde e das comunicações, bem como as entidades médicas e dos farmacêuticos são, portanto, inescapáveis co-réus deste duplo crime. Duplo por que? Não contente em pôr em risco a população pelo incitamento à automedicação, o anunciante constrange os médicos, e à própria revelia destes, a passivos cúmplices e a humilhados legitimadores de tão infame e perversa gana consumista.