quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

HÉLCIO LOBO DE FARIA
O penúltimo romântico
João Amílcar Salgado
Sua voz de locutor na Rádio Inconfidência tornou-se inesquecível, mesmo com a tecnologia ainda precária dos anos dourados. Hoje ela seria muito melhor apreciada, pois sua qualidade excepcional residia exatamente nos atributos de tons que dispensavam a impostação. Aos ouvidos femininos, ela devia ter reverberações magnéticas. Suas ouvintes ficavam ansiosas para conhecer o dono da atrativa dicção e quando descobriam pertencer àquele simpático e circunspecto moreno, tornavam-se fâs permanentes. Com o tempo passou a se parecer mais e mais com Evaldo Gouveia, o grande compositor de canções eternas. Chegou a dar autógrafos passando-se pelo notável músico, disfarce brincalhão que a seguir desfazia entre risos e abraços.
Por sinal, sua coleção de gravações em vinil era riquíssima de diferentes interpretes das criações desse seu sósia: Que Queres Tu de Mim?, Brigas, Alguém me Disse, Sentimental Demais,Tango para Teresa, Somos Iguais, O Conde, O Trovador, Bloco da Solidão e outras. Chegou a acumular muitos discos, pois as gravadoras viam no locutor um meio efetivo para divulgar seus lançamentos. Além disso, tinha discos valiosos de Valdir Calmon, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra e Maysa e também dos clássicos do samba e da música hispano-americana. Ele gentilmente me emprestou a maioria deles para que eu gravasse em fita e hoje constituem um tributo de saudade a este romântico definitivo.
A mais preciosa delas é a gravação do Lamento Borincano em orquestração majestosa, que me fez reviver os bailes com a orquestra Cassino de Sevilha. Em meu livro de memórias, O RISO DOURADO DA VILA (2003) descrevo a inesquecível re-inauguração do clube de minha cidade, exatamente com esta orquestra e esta execução: “Chega a hora: onze da noite. O salão já está repleto e num vozerio danado. De repente, súbito silêncio corre o público. É o desfile dos músicos que vão chegando para ocupar seus lugares. Parece apresentação de toureiros, mas suas vestimentas são ainda mais bonitas, pois misturam a destes com os mais vistosos uniformes militares. Gala assim jamais foi vista, com tanto enfeite e tanto brilho! Completam o cortejo duas morenas andaluzas de vestido longo, com uma fenda até o meio das coxas. Ao andar, suas pernas perfeitas se entremostram provocantemente. São duas lindas carmens que desencadeiam audível onda de suspiros na rapaziada, seguida de outra onda, esta de resmungos das mocinhas.Os músicos se sentam e ficam mexendo discretamente em seus instrumentos. Ouve-se, então, leve rufo e eles se põem de pé. É o instante em que começa aquela coisa inesquecível, ao mesmo tempo comovente e triunfal: são os acordes magníficos do Lamento Borincano, trinado na orquestração de Peres Prado. A beleza esmagadora dos metais e violinos, se prolongam por deliciosas variações da melodia, pois, a cada vez, um naipe de instrumentos se ergue e a coisa se faz cada vez mais inebriante. Quando a música cessa sob a explosão de aplausos, os músicos apenas se curvam em agradecimento, pois de imediato mudam o ritmo e começa a rumba Quien Será. É tocada num sincopado tão rebolante que o salão em peso começa a se mexer. E então as duas moças saem a dançar com dois dos rapazes da orquestra. Depois de duas voltas de exibição, somos convidados pelos dois pares para iniciarmos o baile.” Quando o livro saiu, li para o Hélcio esse trecho e seus olhos marejados brilharam de nostalgia. E comentou: Que pena, eu não estar lá nesse dia!...
Num aniversário em sua casa ele me desafiou a achar em sua coleção uma preciosidade para ouvirmos. Propus que eu apontaria uma e ele outra. A que escolhi era cantada por Geysa Celeste e era assim: Tu me acostumbraste, a todas esas cosas. / Y tu me enseñaste, que son maravillosas. / ... / Por eso me pregunto al ver que me olvidaste. / Por que no me enseñaste cómo se vive sin ti. A dele, cantada por Galves Morales, era assim: Nuevamente vendrás hacia mí, / Yo lo aseguro, / Cuando nadie se acuerde de tí, / Tú volverás./ / ... // Cuando estés convencida / Que nadie en el mundo, / Te puede querer como yo, / Tú vendrás a buscarme, / Sé muy bien que vendrás. E nós dois ouvimos todas esas cosas com os olhos perdidos lá atrás nos anos dourados. Mais emoção veio em seguida quando a Leila pôs a Sarita Montiel para cantar Besos de Fuego e depois Nostalgias. Não teve jeito: ela e eu saímos dançando pela sala...
Logo que conheci o Hélcio, eu disse à Leila que a voz dele me era familiar, de tanto ouvir a Rádio Incondidência, mas que sua figura também me trazia vaga lembrança. Ela disse: já sei é do INPS, onde ele trabalhou por muitos anos!... Respondi que não, a lembrança é de tê-lo visto se exibindo em passos perfeitos de dança, no clube Montanhês. Ele danou a rir e todas as vezes que se falava em música ou dança, ele me pedia para lembrar esse diálogo. Quando foi exibida a série sobre Hilda Furacão na televisão, nós dois consumíamos muita prosa em discutir quais os trechos que eram realmente acontecidos e quais eram frutos da imaginação do Roberto Drummond. Este nessa época era meu vizinho e ambos freqüentávamos o salão do cabeleireiro Gonçalves, onde a Hilda era o tema principal. Lembro-me de um dia ali onde estavam também o Tite (dublê de humorista e exímio cabeleireiro), o Zé Maria Rabelo e o Ariosvaldo de Campos Pires.
Quando a Leila e eu nos casamos, ela temeu que eu me recusasse a comparecer à Tenda do Silêncio, onde o Hélcio seria o oficiante da cerimônia. Ela ouviu com a maior alegria, quando lhe disse que, não sendo adepto daquela religião, iria com o maior prazer. Seria, demais, uma homenagem a meu avô que sofreu absurdas perseguições por ter-se tornado espírita e a homenagem seria também para minha querida prima Zulmira, médium de projeção nacional e internacional. Outra que muito se alegrou com isso foi a dona Vange, minha mãe, pela oportunidade de presenciar rito matrimonial para ela inédito. No ofício, o Hélcio se viu dominado por particular emoção, pois a noiva era sua irmã, sendo que, mais que isso, ele era o segundo pai dela, pois perdera pai e mãe muito cedo.
E foi com aquela dicção perfeita de profissional do rádio que Hélcio Lobo de Faria oficiou a cerimônia. Parecendo estar em transe, proferiu conceitos morais altíssimos, certamente advindos de todos os santos, de todas as religiões e de todos os tempos. Mas ele estava ali diante de um auditório incomum. E todos o ouviam como se ouvissem a um profeta. Sim, naquele caso, era a mais seleta audiência jamais reunida naquela Tenda: era a alta cúpula da principal universidade de Minas Gerais.

Hélcio Lobo de Faria é cunhado do autor e faleceu em 2008

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

SUGIRO AOS AMIGOS DESTE BLOGUE QUE LEIAM O TEXTO MACHADO DE ASSIS, MINAS E A HISTÓRIA DA MEDICINA DIVULGADO EM www.medicina.ufmg.br/cememor

domingo, 23 de novembro de 2008

VINÍCIO DE TODOS OS PALCOS

João Amílcar Salgado

Tangos arrabaleros, boleros de arrastre, valsas e canções seresteiras – eis o encanto que desfruto freqüentemente junto ao grupo do Vinício, com seus músicos feiticeiros: Nievas, Maximiano, Lenice, Ramonda e Fernando. São brasileiros e argentinos que extraem, de cochichos de violinos e resmungos de gaitas, malabares melódicos para a gente fruir e sonhar. Quem os irmana é um maestro zíngaro, com ascendentes galego-ítalo-franceses - doublé de ator e cantor, de arranjador e intérprete – provando ser o mais poeta (mal dos Vinícios) dos Tisos, todos poetas. Por que? Porque se recusa, como ocorreu a Chaplin, a deixar de ser a criança que de fato é. Encanecido, ainda é o pirralho que brincava de pique com o garoto Aureliano, na praça acolhedora de Três Pontas. É o sempre menino, herdeiro de muitos traços da mãe-heroina Antonieta, e que acompanhava encantado o pai, o irrecuperável boêmio Mário (dono de uma legenda em seu rastro), pelos bailes da vida, comendo poeira aos solavancos das boléias.

Estávamos no coquetel do Pedro Bial, celebrando o documentário sobre Guimarães Rosa. Rara ocasião de encontros inapagáveis, por exemplo entre a maior autoridade mundial em Rosa, Luiz Savassi Rocha, e o januarense Levínio Castilho, descendente de Rotílio Manduca, o Zé Bebelo existido de carne-e-osso. Mostro a Castilho a flautista Taciana, o ornamento musical da confraternização - grávida e angelical, tão digna do maior silêncio e tão indiferente ao bla-bla-blá invencível. Garanto: virtuose na flauta como o pai no violino! Lembro-lhe, demais, que o Juscelino incentivou o maestro Epaminondas a constituir a maior orquestra de violinos do mundo aqui no Brasil, aplaudida de 1950 a 80, e nela estava incluído o violino vibrante do Vinício. Imediatamente, Levínio quis a família e a respectiva orquestra em sua inesquecível festa de cidadão honorário. E até hoje o vejo com sua esposa Teresinha, de origem bom-despachense, a sempre bela musa de Guignard, em rodopios de valsas e tangos, tendo em volta os irresistíveis violinos tisos. Eram o norte e o sul de Minas frente a frente, temperados pelos eflúvios de um bom despacho e da melhor cachaça. Ora o deputado montesclarense Genival Tourinho explicava o fenômeno humano chamado Simeão Ribeiro Pires, ora o sindicalista nepomucenense Luiz Fernando Maia dizia das façanhas de seu pai Alfredinho Maia e dos vínculos oeste-sul entre Assunçãos. Ora, então, valsavam o neuriatra Guilherme Cabral e a arquiteta Solange, aplaudidos sem socapa.

Agora, estamos num sábado de supermercado e lá está a troupe do Vinício, enlevando os consumidores em doces acordes. Que ótima idéia, que sacada feliz! Vejo os rostos duros se abrindo. Vejo os olhares se alongando em saudades reincidentes. Vejo lábios sintonizados na evocação de letras que dizem mais do que dizem. E tais respostas são captadas pelos menestréis que redobram o dolorido de tons e entre-tons. E o mais belo de tudo é a nobreza dos músicos, que não é diminuída pelo ambiente. Ao contrário, é o recinto que se enobrece com a humildade cativante deles todos, cada qual merecedor de récita e coro sinfônico, cada qual generoso no talento que sobeja.

Parabéns ao gerente que percebeu esta surpreendente brecha entre a sociedade de consumo e a tradição seresteira destas paragens! Parabéns à gente belorizontina, pelos semblantes recuperados, humanizados, ternos, desta manhã de sábado! Parabéns, enfim, aos prestidigitadores musicais, inventores desta nova prática matinal de beleza.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

JOSUÉ DE CASTRO - DE COMO VEM SENDO INJUSTIÇADO ESTE HERÓI DA MEDICINA BRASILEIRA
João Amílcar Salgado
Em setembro de 1998, visitei o Memorial da Medicina da Universidade Federal de Pernambuco, que estava sendo inaugurado no Casarão do Derby, antiga sede da primeira Faculdade pernambucana. Ali foi organizado rico acervo, antes acumulado no Hospital Pedro II e datado desde os primeiros anos do Brasil. Depois de elogiar o conjunto da exposição e especialmente o realce de alguns aspectos, cobrei dos anfitriões a mínima referencia a Josué de Castro. Fui informado de que no repertório do que foi recolhido nada havia sobre ele e que a partir de então seria providenciado ativamente o que fosse possível. Mesmo no riquíssimo acervo do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, fundado em 1977, onde nos orgulhamos de preservar os livros pernambucanos de Mourão, Rosa, Pimenta, Guilherme Piso, Otávio de Freitas, Leduar Rocha, Nelson Chaves, Valdemar de Oliveira, Orlando Paraim, Luiz Carlos Diniz e outros, também não tínhamos até recentemente os livros de Josué de Castro. Isso significa que o anátema ditatorial de que foi vítima foi particularmente eficaz em quase apagar seu nome da memória médica nacional.
Dessa vergonhosa injustiça tive notícia percebida de fora de nosso país em 1979. Nesse ano houve um congresso sobre ensino médico na cidade de Puebla, no México. Um professor peruano, cujo nome infelizmente não anotei, pediu minha opinião sobre Josué de Castro. Quando declarei admirá-lo desde os bancos acadêmicos, meu interlocutor se animou em revelar sua amizade pessoal ao brasileiro. E descreveu-me com lágrimas nos olhos a angustia de Josué temeroso de falecer longe da pátria. E nós dois afinal concordamos em que a perversidade de impedir seu regresso para morrer aqui deve ser assinalada para a posteridade tão firmemente quanto o brilho inapagável com que viveu.
Relatei-lhe a seguir a objeção de Baeta Viana às idéias de Josué de Castro E o fiz como integrante da escola clínica derivada de Viana. Mesmo reconhecendo os méritos desse líder científico, não poderia honestamente deixar de atribuir-lhe considerável influência na sonegação do prêmio Nobel a Josué de Castro. E o pior é que posso ter contribuído, eu próprio, para acirrar as objeções de Baeta a Castro. De fato, estávamos em 1956 e colhíamos entusiástico abaixo-assinado em favor do prêmio Nobel a Josué de Castro. Considerando a projeção de Baeta Viana na ciência brasileira, ingenuamente pensávamos que seu apoio seria valiosíssimo. Quando pedimos que subscrevesse o documento, ele não apenas negou como nos fez uma preleção para provar que os textos de Josué continham grave impropriedade bioquímica. Era a afirmação de que a fome aumenta a prole, o que seria impossível do ponto de vista da química das proteínas. E cada aula seguinte era precedida de introdução demolidora contra Josué de Castro. Em defesa deste, espicaçávamos o Baeta com dados de peso contrários à sua argumentação, trazidos da rica biblioteca que ele mesmo criara. Chegou a indignar-se quando observamos que sua posição certamente advinha de que os livros de Josué eram contundentes contra o eugenismo tendencioso cultivado nos EUA e na Alemanha nazista. Noutro dia argumentei que suas objeções pareciam vir mais de Aristóteles do que de Francis Bacon, pois, sendo de natureza apenas lógica, eram destituídas de dados numéricos experimentais. Colhido assim, ele reagiu com um de seus raros sorrisos, mas sua posição se manteve a mesma.
Mais tarde, concluí que a oposição de Viana foi muito mais significativa, indo além da força de sua assinatura. Isso pela enorme influência que ele desfrutava na SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA, da qual era co-fundador e da qual foi dirigente por mais de um mandato. Ali ele era ouvido como a um papa e não como a um cientista. O tempo provou que Josué estava certo, mas a censura de que foi vítima não ficou restrita àquela época. A ditadura militar de 1964 a reafirmou e a pretendeu definitiva. Hoje, o prolongamento de tal anátema em pleno regime democrático, passa a ser mais odioso ainda. Sem dúvida é tão inaceitável quanto omitir seus autores atuais, que devemos denunciar. Mesmo quando a China atropela o noticiário diário, em virtude de seu espantoso crescimento econômico e do impressionante desempenho organizacional, estético e esportivo nas Olimpíadas de 2008 – verifica-se que o centenário de Josué de Castro não é lembrado, logo ele que expôs ao mundo as entranhas e as múltiplas dimensões desse gigante real, que o Ocidente espezinhou e quis ignorar. Insisto: afinal, de onde vem a censura póstuma a Josué de Castro? Meu dedo neste caso se volta para apontar gente supostamente intocável no Brasil de hoje: são os auto-designados cientistas políticos.
São atores (ou melhor, prestidigitadores) fundamentais na ação coordenada pelos interesses neo-liberais mais escusos. A trama envolve, além deles, os jornalistas da chamada grande imprensa e os publicitários. São personagens inventadas pela inteligente iniciativa da Fundação Ford de criar, nas universidades da América Latina, os chamados DEPARTAMENTOS DE CIÊNCIA POLÍTICA, na década de 60 do século 20, como resposta à agitação estudantil mundial que culminou em 1968. A estratégia consistiu em usar tais departamentos para atrair formadores de opinião originariamente esquerdistas, de modo a que se deslocassem rumo à centro-direita e à direita, coerentemente com o fenômeno da globalização. Os líderes mais promissores foram levados a Santiago do Chile e, conforme o caso, aos EUA. O processo de amansamento dos ativistas foi reforçado durante os prolongados governos Reagan e Thatcher e pelo colapso da União Soviética. Afinal o objetivo daquela Fundação foi alcançado, com resultados bem maiores do que os esperados, na medida em que os novos entes forjados por ela, os chamados cientistas políticos, passaram a saturar a comunicação coletiva, na condição de consagrados gurus de jornalistas (dos âncoras aos focas), de publicitários e de profissionais de Historia e de Ciências Sociais. No Brasil a coisa foi mais longe ainda, quando um deles, Henrique Cardoso, foi guindado, também prolongadamente, a Presidente da República.
Vale lembrar que no dia-a-dia, quando percebem ser inevitável focalizar alguém, mas não é seu interesse enfatizar o respectivo lado ideológico - por exemplo, figuras ainda em vida como Betinho, Niemeyer, Florestan Fernandes, Helio Pelegrino, Antônio Candido, Sérgio Buarque, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Leonardo Boff - a ordem é realçar o talento apesar do ranço ideológico. Mas, quando é possível uma censura completa ou quase completa, como no caso de Josué de Castro, esta é feita sem pudor ou piedade, infringindo-lhe dupla morte. Sim, o povo brasileiro é refém de uma comunicação coletiva insensivelmente tendenciosa, cinicamente mendaz e transudante de preconceitos por todos os poros. São tão unânimes, em seu conluio desinformativo que, quando se ouve um deles e, a seguir, o aparente outro, é como ouvir porta-vozes uníssonos do primeiro mundo. Em outras palavras, comportam-se não como latino-americanos ou brasileiros, mas como ianques e, mais que isso, como ianques militantes do Partido Republicano.
Aproveito para implorar-lhes que despertem por conta própria pelo menos desse tremendo ridículo de se auto-designarem cientistas políticos. Se os verdadeiros cientistas se constrangem quando são chamados de cientistas e, sempre que podem, aceitam a contragosto serem chamados de pesquisadores – que palhaçada é essa da insistência no ranço dessa auto-denominação monstrenga? Diante disso tudo, Josué de Castro não tem a menor chance de ser lembrado condignamente em seu centenário. E este herói da medicina brasileira deverá aguardar as comemorações de seu bicentenário, para que lhe sejam tributadas todas as homenagens, em honra de seus méritos incontestes. E ficará para nós poucos e as gerações futuras o profundo lamento por tão clamorosa e tão infidável injustiça.

O autor é professor titular de Clínica Médica e pesquisador em História da Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais

terça-feira, 30 de setembro de 2008

BONUS EM DINHEIRO PARA OBTER DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Neste mês de setembro de 2008 foi anunciado que o Ministério da Saúde passa a pagar bônus para quem conseguir convencer a família a doar órgão de paciente com morte cerebral. Esta decisão, se verdadeira, fere frontalmente a ética médica. E mais, se confirmada, esta iniciativa vai somar-se àquele fiasco do governo Henrique Cardoso, segundo o qual a condição de doador (ou não doador) passava a constar da carteira de identidade. O Conselho Federal de Medicina e os Conselhos Estaduais de Medicina deverão entrar com providências urgentes para impedir tamanha agressão governamental à ética médica, já tão desrespeitada pela propaganda de medicamentos, de equipamentos e de planos pré-pagos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

NEPOMUCENENSES NOBRES DO IMPÉRIO
João Amílcar Salgado
Nepomuceno conta com dois de seus filhos entre os nobres do Império. Isso interessa àqueles nepomucenenses que gostariam de saber se tem algum parente fidalgo. Não há nada de ridículo nisso, pelo contrário. Os estudos nessa área podem produzir conhecimento histórico de interesse geral que ultrapassa a vaidade das famílias. Ainda não foi feito estudo completo de como a Ordem de Cristo operou para a escolha dos agraciados por critérios de mérito real, especialmente aquilo que hoje se chama empreendedorismo.
No presente caso há a relação com parte das tropas brasileiras que participaram da Retirada da Laguna. Quando antes se dirigiam ao teatro da guerra do Paraguai, acamparam exatamente nas terras da família do futuro Barão de Monte Santo, na cidade paulista de Mococa. E quem descreve tal passagem é nada menos que o Visconde de Taunay. Vale lembrar que em meio a essa tropa havia outro importante nepomucenense que deixou ilustre família: o capitão Menezes.
Em meu livro O RISO DOURADO DA VILA, de 2003, falo dos dois nobres nepomucenenses, o Barão de Monte Santo e o Barão de Mogi-Guaçu, nos trechos reproduzidos a seguir.
“ Precioso é o mapa de nossa população, levantado no ano da abdicação de Pedro I, nove depois de proclamada a independência do Brasil. Nele está oficializado o nome da futura cidade de Nepomuceno como DISTRITO da CAPELA DE SÃO JOÃO NEPOMUCENO da FREGUESIA DE SANTANA DE LAVRAS da VILA DE SÃO JOÃO DEL REI da COMARCA DOS RIO DAS MORTES, datado de 16 de dezembro de 1831 e assinado pelo juiz João Antônio Gomes. Revela que o distrito contava com 172 casas (fogos) e 2605 moradores, sendo 1362 livres e 1243 cativos.” ... “A partir de 1820, Garcias e Limas, sem abandonar o lugar, foram colonizar o noroeste paulista e o Triângulo, chegando ao antigo Mato Grosso, onde o Sertão dos Garcias ficou conhecido. Esta diáspora nos rendeu dividendos nobiliárquicos em São Paulo, ou seja, os dois únicos barões do império nascidos na Vila são o Barão de Monte-Santo, Gabriel Garcia de Figueiredo, e o Barão de Mogi-Guaçu, José Caetano de Lima. O primeiro aparece no citado censo com 14 anos, filho de Diogo Garcia da Cruz, e o segundo com 10 anos, filho de João Caetano de Lima.” ... “ Em seu livro O Capitão Diogo Garcia da Cruz, Ricardo Daunt diz que o Visconde de Taunay, em Marcha das Forças, referente à guerra do Paraguai, descreve sua parada a 3/7/1865, na fazenda Alegria em Mococa. Ali topa com seu proprietário, o nepomucenense Diogo Garcia de Figueiredo, que, no mapa de 1831, consta com a idade de dez anos.”
A fazenda Alegria passou a integrar a cidade de Casa Branca, sendo Mococa sua ex-freguesia de São João Batista.. Para a região vieram também os Vilas Boas, Carvalhos e Vilelas, todos primos dos Garcias, Figueiredos e Limas. A principal praça de Casa Branca chama-se praça Barão de Mogi-Guaçu, onde se localiza o Casarão dos Vilela, atração turística. Esse casarão foi edificado na fazenda Santana e foi “transportado” para a praça em 1890, na época do boom da ferrovia Mogiana. Na mesma cidade, na praça Honório Sillos, está o Marco da Retirada da Laguna, referente ao histórico acampamento militar.
O nepomucenense Barão de Monte Santo, Gabriel Garcia De Figueiredo
Gabriel Garcia de Figueiredo, terceiro Barão de Monte Santo, nasceu em Nepomuceno, MG, em 14-01-1816, e faleceu em Mococa, SP, em 18-11-1895. Foi um político, banqueiro, agricultor e pecuarista brasileiro. Recebeu o título de terceiro Barão de Monte Santo. O título, embora referente à cidade mineira de Monte Santo, não tem com esta relação direta, como era usual nos títulos do império. O Imperador Pedro II, em 19-12-1885, outorgou a Gabriel Garcia de Figueiredo o título de Barão de Monte Santo por seus inúmeros serviços prestados à Nação. O outorgado pertencia também à Ordem de Cristo e era Tenente-Coronel da Guarda Nacional
Gabriel foi proprietário de diversas fazendas na atual microrregião de São João da Boa Vista, abrangendo os municípios de Casa Branca, Mococa, Cajuru, Altinópolis, Batatais, São Tomás de Aquino e São Sebastião do Paraíso. Suas principais propriedades rurais em Casa Branca foram denominadas Borda da Mata (nas terras da grande fazenda Alegria), Grama, Monte Santo e Jardim, tendo sido um dos maiores exportadores de café, da Província de São Paulo (a fazenda Alegria, como antes dito, hospedou as forças brasileiras rumo à Guerra do Paraguai). Foi um dos fundadores do Banco Regional de Mococa. Sucedeu seu cunhado, Capitão José Gomes de Lima, como chefe do Partido Conservador, de 1866 até a proclamação da República. Foi vereador à Câmara Municipal de Casa Branca, nas gestões de 1852 a 1856 e de 1860 a 1864, como representante da então Freguesia de São Sebastião da Boa Vista, hoje cidade de Mococa, da qual é um dos fundadores. Desta cidade foi grande benemérito, juiz de paz e, em 1873, primeiro presidente da Câmara Municipal. Ali, em 1879, custeou sozinho um edifício para a instrução pública, doando-o, em 1885, ao governo provincial. Auxiliou o padre Bento Monteiro do Amaral na construção da igreja matriz de S. Sebastião de Mococa. A seu pedido “ante-mortem”, sua filha Carolina Emília de Figueiredo, doou a esta mesma cidade o hospital “Carolina de Figueiredo”.
Gabriel Garcia de Figueiredo casou-se em 30-11-1839 na ermida do Jaborandi, em Altinópolis, com sua sobrinha Maria Carolina de Figueiredo (1828-91, falecida em Mococa), filha de seu irmão Joaquim Garcia de Figueiredo e de Jacinta Carolina dos Reis. Gabriel e Carolina tiveram sete filhos: Maria Cândida, Ana Jacinta, Iria Leopoldina, Carolina Emília, Mariana Leopoldina, José Gabriel e Maria Pia. Maria Pia casou-se com Rogério Daunt, sendo pais de Ricardo Gumblenton Daunt, autor do citado livro (hoje um clássico) sobre Diogo Garcia da Cruz. O apelido de outra “nepomucenense”, Ana Jacinta de Figueiredo, irmã do Barão Gabriel, é digno de registro, pois era chamada por todos de “Tia Senhora”. Além de Daunt, são historiadores da família José Guimarães, Luiz Antônio Vilas Boas e Luiz Gustavo de Sillos.
O nepomucenense Gabriel Garcia de Figueiredo, terceiro Barão de Monte Santo, foi o décimo segundo filho do capitão Diogo Garcia da Cruz e de Inocência Constância de Figueiredo; sendo neto paterno de Mateus Luís Garcia, fundador de Nepomuceno, e de Maria Francisca de Jesus; e neto materno do Capitão-Mor José Álvares de Figueiredo, fundador de Boa Esperança, e de Maria Vilela do Espírito Santo, que por sua vez era filha do Capitão Domingos Vilela e de Maria do Espírito Santo Garcia, e, por esta, neta de Diogo Garcia e de Júlia Maria da Caridade (Corrêa), uma das célebres Três Ilhoas.
O nepomucenense Barão de Mogi-Guaçu, José Caetano de Lima
José Caetano de Lima, 1º Barão de Mogi-Guaçu, nasceu em Nepomuceno, MG, em 29-07-1821 e faleceu, aos 82 anos, em Casa Branca, SP, em 22-03-1901. Era filho de João Caetano de Lima, nascido cerca de 1795 e de Cecília Maria Rosa de Jesus. José Caetano de Lima casou-se em 04-08-1838 com Maria Leopoldina de Sillos, e tiveram os filhos Francisco Eugênio de Lima, casado, em 04-08-1838, com Altina Etelvina Nogueira, e Maria do Carmo Sillos Lima, casada, em 16-07-1850, com José Caetano de Castro.
José Caetano de Lima herdou o nome de seu tio-avô que faleceu solteiro. Faleceu de enterite crônica e está sepultado na igreja matriz de Casa Branca. No censo de 1850, realizado em Casa Branca, José Caetano aparece como negociante alfabetizado. Exerceu o cargo vitalício de Partidor dos Juizes e de Órfãos de Casa Branca. Reconstruiu a igreja matriz de Casa Branca depois de um incêndio.
Maria Leopoldina de Sillos, esposa de José Caetano de Lima, era filha do Barão da Casa Branca, tinha 19 anos no referido censo de Casa Branca, de 1850, e prestava assistência na Santa Casa de Misericórdia em São Paulo. Faleceu em 1874. O Barão Vicente Ferreira Sillos, pai de Maria Leopoldina (que recebeu o mesmo nome da imperatriz), recebeu o título de nobreza em 1887. No ano seguinte hospedou Pedro II em Casa Branca, para a inauguração da ferrovia Mogiana, e o hospedou novamente em 1886.
Viúvo aos 55 anos, José Caetano casou-se em segundas núpcias com sua parenta, também viúva, Inocência Constança de Figueiredo, nascida em Franca e que já tinha nove filhos do primeiro casamento com Jerônimo José de Carvalho. Inocência não teve filho com José Caetano e faleceu em Casa Branca.
Eis uma lista de nepomucenenses que tiveram alguma relação com a família de José Caetano de Lima na região de Nepomuceno e na região de Casa Branca:





- ANA LUISA DE AQUINO
- ANA ANTONIA DE SOUZA
- ANA ATONIA DE LIMA
- ANA CONSTANCIA DE JESUS OLIVEIRA
- ANA FRANCISCA DE CASTRO
- ANA JOANA CORALINA
- ANA JOSEFA SILVA LEITE
- ANASTACIO MENDES DOS SANTOS
- ANTONIO CAETANO DE MENDONÇA
- ANTONIO CAETANO VILAS BOAS
- ANTONIO DE PADUA DA SILVA LEITE
- ANTÔNIO JOSÉ CAETANO DE LIMA
- ANTONIO PEREIRA DE CASTRO
- AUGUSTO DE PAULA LIMA
- BÁRBARA GENEROSA DE JESUS LIMA
- CANDIDA BALBINA DE SÃO JOSE VILAS BOAS
- CANDIDA CAROLINA DE OLIVEIRA
- CECILIA MARIA ROSA
- CECÍLIA ROSA DE JESUS
- FRANCISCA CANDIDA DE SÃO JOSÉ DE LIMA CASTRO
- FRANCISCA PEREIRA DE ARAUJO
- FRANCISCA ROMANA VILAS BOAS
- FRANCISCO ANTONIO DE LIMA
- FRANCISCO ANTONIO DE LIMA FILHO
- FRANCISCO JOSÉ DE PAULA LIMA (GÊMEO DE MARIA FILISBINA LIMA)
- JERÔNIMO JOSÉ DE CARVALHO
- JOÃO CAETANO DE LIMA
- JOÃO CAETANO DE LIMA FILHO
- JOÃO ERNESTO COELHO
- JOÃO FERREIRA DE AQUINO
- JOAQUIM CAETANO DE LIMA
- JOAQUIM DA SILVA
- JOSÉ ANTONIO DE LIMA
- JOSÉ ANTONIO DE PADUA
- JOSÉ MARTINIANO DA CUNHA
- JOSÉ MARTINS VILAS BOAS
- JOSÉ QUITA DE LIMA
- JOSÉ VENÂNCIO VILAS BOAS
- LINO GOMES DE LIMA
- LUDOMILA OU LIDOMILA (LUDIMILA?) LIMA
- LUISA FLAUSINA DE SÃO JOSÉ
- MANOEL ANTONIO DE LIMA
- MANOEL CAETANO VILAS BOAS
- MANOEL JOÃO DA COSTA
- MANOEL JOAQUIM DA SILVA
- MANOEL PEREIRA DE CASTRO
- MARIA BALBINA MONTEIRO VILAS BOAS
- MARIA CANDIDA BALBINA DE CASTRO
- MARIA CONSTANCIA DE JESUS
- MARIA LIMA MELO
- MARIA LUISA DE SÃO JOSÉ VILAS BOAS
- MARIA PERCILIANA DE OLIVEIRA
- MARIANA CANDIDA BALBINA DE CASTRO
- MARIANA CANDIDA DE OLIVEIRA
- MARIANA CLEMENTINO DE SOUZA
- MARIANA FILISBINA DE JESUS CAETANO DE LIMA
- MARIANA LEITE DE JESUS
- MARIANA PEREIRA DE CASTRO (MARIANA JANUÁRIA?)
- PADRE ANGELO GONÇALVES D´ASSUMPÇÃO
- PADRE BRAZIL
- PADRE JOÃO TOMÁS DE SOUZA
- PADRE JOSE CUSTODIO DE OLIVEIRA (CUSTODIO JOSÉ)
- PADRE NICOLAU
- PERCILIANA (PRECILIANA) DE SOUZA LIMA
- RAFAEL ANTONIO DE LIMA
- VICENTE FERREIRA DE SILLOS PEREIRA
- VICENTE FERREIRA MARTINS
- VICENTE MARTINS PEREIRA DA COSTA

sábado, 20 de setembro de 2008

O ENSINO DE MEDICINA MAIS IRRESPONSÁVEL DO MUNDO

João Amílcar Salgado

A Associação Brasileira de Escolas Médicas, hoje de Educação Médica, foi fundada no início da década de 60. Teve por modelo a associação congênere criada bem antes nos EUA, exatamente para, entre outros fins, coibir a criação indiscriminada de cursos médicos. Quando esta foi criada, o processo sobre novos cursos passou a obedecer às seguintes instâncias: a decisão era tomada pela corporação da associação de escolas, que era acatada pela Associação Médica e a posição desta era acatada pela sociedade em geral, inclusive sancionada pelo poder público.

Com o agigantamento da indústria de saúde a partir da segunda guerra mundial, tal controle veio sendo progressivamente modificado pela entrada em cena de poderosos interesses industriais ligados a medicamentos e a equipamentos, com reflexos indiretos sobre o sistema de educação médica, especialmente na pós-graduação. No final do século 20 e no início do 21, interesses crescentes ligados à cada vez mais poderosa indústria de serviços passam a pressionar diretamente sobre o modelo educacional e diretamente sobre a graduação. A tendência é o enfraquecimento do poder decisório das associações corporativas, podendo ocorrer, principalmente se Obama for derrotado, que o controle da formação de médicos passe às próprias organizações de serviço.

No Brasil observa-se que essa mudança está ocorrendo de maneira tão agressiva que as entidades médicas e os “irresponsáveis” pelo ensino médico encontram-se francamente intimidados e até escandalosamente marginalizados. E culminam com uma atitude totalmente ridícula diante do surgimento desenfreado de cursos médicos. Atitude que varia desde fingir que nada de mal está ocorrendo até o estarrecedor apelo para que se fale na coisa com cuidado, para não desagradar ao ministro e para não ofender o Banco Mundial, a Fundação Getúlio Vargas ou a Rede Globo de televisão.

Com a atual demanda exacerbada de mão-de-obra para serviços, indústria e agricultura, em geral, é freqüente a queixa dos dirigentes de que estão sendo obrigados a formar seu próprio pessoal. Ora, essa providência, em vez de motivo de queixa, no caso dos serviços lucrativos de saúde, é seu sonho. Ou seja, o sonho dos mercadores da saúde é serem donos de escolas médicas, para nelas formar seus próprios balconistas, travestidos de doutores. Tudo culminará com o gangsterismo educacional abraçado ao gangsterismo em saúde - para desgraça de toda a população brasileira, sem distinção entre pobres e ricos.

O autor é professor titular de Clínica Médica e pesquisador em História da Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais