quinta-feira, 28 de outubro de 2010

SEBASTIÃO NATANIEL SILVA GUSMÃO

SEBASTIÃO NATANIEL SILVA GUSMÃO

De talentoso nauta de improváveis travessias aos postos máximos da neurocirurgia brasileira e da carreira universitária

João Amílcar Salgado

De todos os extraordinários feitos que eu poderia enumerar como cometidos pelo médico, neurocirurgião, cientista, professor, historiador, inventor e escritor Sebastião Gusmão, prefiro me restringir ao sobredito, ou seja, que ele é em essência um talentoso nauta de improváveis travessias. Sim, sou testemunha de que ele fez heróicas intervenções neurocirúrgicas, coordenou o Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de História da Medicina, inventou aparelho de vivissecção terapêutica do encéfalo, escreveu oito livros, além de três em redação, assumiu há pouco o posto máximo de presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e assume hoje o posto máximo da carreira universitária, que é o de professor titular de Cirurgia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Prefiro, repito, enaltece-lo não por tantas dessas altas e nobres realizações, mas por incríveis diagonais subjetivas e objetivas, vislumbradas por mim em sua originalíssima biografia.

A primeira travessia ocorreu quando emergiu do ventre materno para a luz benfazeja de sua querida cidade de Itamarandiba. O inusitado aí não foi o parto, multíparo que era, mas de ter sido por mão de douto em vez de parteira. Na pequena agenda de Afonso Pavie está lá escrito: hoje fiz o parto da dona Nely, nasceu forte menino que receberá o nome de Sebastião. Isso ligou umbilicalmente o nascituro à França de Pavie.

A segunda travessia consistiu em passar pela ponte estreita entre as linhagens materna e paterna de sacerdotes, ambas pontilhadas de ilustres religiosos, inclusive bispos e cardeal. Pesou mais o lado paterno, atraído à desabusada amplitude intelectual, característica dos Gusmão, comprovada ao longo de séculos. Desde algum Gute Mann godo, até os Bartolomeu, Alexandre, Domingos, Xanana, Abimael e Rivadavia. Amplitude que se desborda mais pela ciência do que pela fé, mais pelo ativismo político do que pelo fervor apostolar, mais pelo cosmopolitismo do que pelo nativismo e mais pelo ecumenismo do que pelo sectarismo.

Mesmo antes de chegar à Capital, protagonizou inédita diagonal dentro da cultura mineira. De Itamarandiba a Pouso Alegre, descobriu as muitas Minas Gerais como realidade una. Era a antecipação do encontro entre dois fraternos amigos, ele e eu, sulmineiro que sou.

A passagem estreita do exame vestibular o conduziu ao contato iniciático com o cadáver. Ele não sabia, mas, na primeira vez em que seu bisturi feriu aquele corpo sem vida, já havia ali a marca da mão cirúrgica do futuro profissional, a qual, no entanto, principalmente em seu caso, era antes de tudo rara mão anatômica - que denominei, quando mais rara ainda, mão vesaliana. Eis outro ponto que nos irmana: a anatomia. Minha turma recebeu, em plenos anos dourados, a maior carga horária anatômica jamais oferecida. Daí passei a coligir tais raras mãos, a começar por aquelas de meus privilegiados colegas-de-turma, hoje astros desta arte, e também seus notáveis mestres formais e informais: Sálvio Nunes, Wellerson Lima, Wilson Abrantes e José Sílvio Resende. Recebemos também o primeiro curso específico de neuranatomia, a seguir transformado em disciplina. Estou assim autorizado a reconhecer no anatomista e neurocirurgião Sebastião Gusmão O PRÍNCIPE DA MÃO VESALIANA NEUROCIRÚRGICA BRASILEIRA.

Para completar sua especialização, auspiciosamente iniciada com seu primeiro mestre José Gilberto de Souza, só poderia dirigir-se à pátria de Afonso Pavie, o aristocrata francês que o partejou e que antes fizera a travessia França-Itamarandiba. Nessa contra-travessia Itamarandiba-França, feita por Sebastião Gusmão, consolidou-se um intercâmbio franco-mineiro anteriormente prenunciado por figuras ilustres de nossa historia, a exemplo dos estudantes de medicina mineiros inconfidentes de Montpellier e de Bordeaux, de Saint-Hilaire, Taunay, Renault, Sigaud, Couy, Peret e outros. Para a primeira guerra mundial, em seu final, o Brasil em vez de com soldados contribuiu com médicos, quando no Hôpital Brésilien, adaptado de um convento, impressionaram os de lá com a habilidade cirúrgica (análoga à do futebol e do samba), depois admirada também na América do Norte.

A seguir, no centenário de nascimento de Pasteur, comemorado a partir de 1922, a maquete de nosso Instituto do Radium foi exibida, com elogios, em Estrasburgo. O cirurgião René Leriche, um dos maiores do mundo, foi convidado a Belo Horizonte onde operou no mesmo Instituto. Com isso, as duas maiores expressões da cirurgia francesa, Leriche e Victor Pauchet, um professor em Estrasburgo e outro nascido em Amiens, estabeleceram relações com Minas, o primeiro por meio de Borges da Costa e o segundo por meio de Afonso Pavie, seu conterrâneo, seu ex-colega de curso médico e seu maior amigo. Por sinal, Costa e Pavie, ao lado de Hermenegildo Vilaça, são iniciadores da cirurgia moderna em Minas. Mais tarde, na gastroenterologia, floresceu belo intercambio entre o scolar Henri Sarles, de Marselle, e uma plêiade de médicos mineiros.

Quando Sebastião Gusmão foi especializar-se em Estrasburgo, renovou multiplicadamente essa múltipla ligação entre as medicinas francesa e mineira. E esta foi reforçada por luminosas amizades entre o brasileiro e dois imponentes vultos da neurocirurgia francesa: Daniel Maitrot de Estrasburgo e Pierre Galibert de Amiens – ambos devotados admiradores tanto do amigo como de Minas e do Brasil. Pelo serviço que Gusmão prestou à comunidade de Amiens, revelando-lhe a façanha tropical de Pavie, concederam-lhe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade local

Intercâmbio igualmenate incomensuravel estabeleceu Sebastião Gusmão com outro luminar da cirurgia neural, o curdo Mamude Gazi Yasargil. Operando na Suíça, ele criou a microcirurgia encefálica, pelo que foi eleito o homem do século 20 da neurocirurgia mundial. Ele mantém comovente afeição a seu discípulo brasileiro e também à cidade de Ouro Preto. Atualmente, nos EUA, com 85 anos, ainda opera diariamente, mantendo-se ativo graças ao regime de comer maçã a cada meia hora, hábito de seu povo. Palavras semelhantes eu teria para outros amigos ilustres do Sebastião, espalhados pelo mundo, em virtude de um sem número de frutíferas travessias, do Japão às Américas. Todos estejam representados aqui pelo maior especialista em migração lusa ao Brasil, o bracarense Miguel Monteiro, recentemente falecido, a quem ora homenageamos muito saudosos, ainda mais que por certo viria a esta festa.

Nenhuma dessas sumidades, que tive o prêmio de conhecer, graças a meu convívio com o Sebastião, se iguala, no mais fundo de meus sentimentos, a seu pai, o sertanejo Sêo Nozinho, vernaculamente Natan Gusmão. Muito me orgulho de que Sêo Nozinho me tratava não como o intelectual que sou, mas como um dos demais fazendeiros de Itamarandiba, fazendeiro que sou de Nepomuceno. Conquistei-o quando me reconheceu amador igual de muitas das coisas que ele amava. A primeira delas foi a divina leitoa que a dona Nely nos serviu em minha primeira visita. Ela própria fez questão de dizer que meu elogio foi o maior, e garanto justo, que jamais recebera por suas muitas habilidades culinárias. E os causos com que o Sêo Nozinho e eu nos entretínhamos por horas a fio, se escritos, ameaçariam o famigerado autor Guimarães Rosa.

Certa vez cheguei a sua gostosa residência, junto a essa gente tão irmã, e, já no meio daquele abraço de matar saudade, Sêo Nozinho já foi adiantando que lembrara de algo que muito me interessaria. Ele queria contar que seu pai, Herculano, e seu avô, Joaquim, clinicaram como carimbambas naquela região por longos anos, auxiliados por um manual de Chernoviz. Só essa notícia já era fundamental para atestarmos o pendor hereditário do médico Sebastião Gusmão. Mas o que Sêo Nozinho acrescentou foi muito mais impressionante, precioso e significativo. Era que seu avô Joaquim Gusmão acabou sofrendo um derrame e perdeu a fala, mas não a escrita. Sendo ele insubstituível, o povo ficou aliviado quando soube que ele podia continuar atendendo a todos, usando apenas a escrita. Mas Seo Nozinho ressaltou: que os clientes não insistissem para que ele dissesse algo, pois de seu antigo e quase sempre educado vocabulário só lhe restou um palavrão.

E foi então que o Sebastião e eu verificamos que a época desse fato foi a mesma em que o notável neurofisiologista francês Pierre Broca descreveu o local cerebral da fala humana, em um paciente vítima aparente também de um derrame. Se instado a falar, o gaulês emitia sempre um esboço de palavra que ficou eternizada em várias línguas: tantan. Assim o palavrão brasileiro e o tantan relatado por Broca passaram a ser mais uma das misteriosas diagonais traçadas pelo argonauta Gusmão, em sua esplendente vilegiatura pela vida, pela ciência e pela cultura.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

NEPOMUCENO
De como esta cidade está no mapa sentimental de Minas
João Amílcar Salgado
Qualquer observador já se encantava por Minas Gerais mesmo antes de 1700, sobretudo pela paisagem. Após essa data, houve a gradativa sedimentação do espírito mineiro e os visitantes mais ainda se fascinavam, desta vez tanto pela paisagem como pelo modo mineiro de ser. Ainda no século 18, um minerador, depois de viver feliz e enriquecer aqui, concluiu que D. João V, rei de Portugal, seria muito idiota se não transferisse a sede do reino para esta província. O próprio Tiradentes também disse, é claro que pensando em Minas: se todos quisessem, poderíamos fazer do Brasil uma grande Nação.
O medo de isso acontecer fazia tremer aqueles que levavam daqui enorme quantidade de ouro e gemas. Tanto que impediram o acesso de Minas ao Atlântico. Hoje se sabe que, se tivéssemos mar, seria inevitável nossa independência, muito antes de 1822. Já no século 19, um engenheiro inglês, depois de percorrer Minas Gerais, propôs que o Império Britânico usasse de seu poderio para anexar a seus domínios esta encantadora região. Curiosamente acrescentou que, caso isso fosse feito, os novos donos teriam muito trabalho em moldar o jeito tranqüilo de nossa gente ao estilo enérgico necessário à exploração de tão maravilhosas riquezas.
Estudo o fato de que a cultura mineira contém virtudes únicas que a fazem ultrapassar generosamente as fronteiras de nosso Estado. Por outro lado, o GRANDE SUL DE MINAS compreende as águas vertentes descidas do norte até o Rio Grande e ao mesmo tempo engloba toda a chamada Zona da Mata Mineira. Quem forçou a Zona da Mata a separar-se do Sul de Minas foi gente traidora de Minas. Isso acabou inibindo a precedência juizforana na industrialização brasileira, inclusive causando a localização fora de Minas da usina de Volta Redonda, a primeira siderúrgica do país. E, para que esta produzisse aço, cinicamente vinham buscar o minério em Minas.
Todo esse preâmbulo é para ressaltar os privilégios de Nepomuceno, localizada a igual distancia dos três maiores centros metropolitanos, no coração da área mais desenvolvida do país. E estamos vivendo um tempo em que o Brasil, apesar de muitos obstáculos, está em vias de se tornar a quinta nação mais rica do mundo, como profetizou o estadista Tiradentes, há 220 anos atrás. Além dessa singularidade geopolítica, contamos com inestimável privilégio histórico. Nepomuceno situa-se bem perto da Estrada Real, tanto é que a rodovia Fernão Dias, quando ainda era de terra, passava por aqui, contornando a igreja Matriz, subia a Rua Rubem Ribeiro e saía pela Rua Ana Idalina. Esse caminho, entre a cidade de Parati e Sabará, foi chamado de Caminho Velho e foi usado de 1674 até 1710, quando, para o escoamento do ouro, foi substituído pelo Caminho Novo, entre o Rio de Janeiro e Vila Rica. Antes, entretanto, de 1710, o Caminho Velho já era uma rede de caminhos e o trecho próximo a Nepomuceno passou a ser cada vez menos usado, pois os viajantes passaram a desviar-se na hoje cidade de Cruzília em direção a São João Del Rei.
Depois de 1710, havendo menos pressa para chegar ao ouro de Sabará e Vila Rica, caçadores de ouro, entre eles os próprios parentes de Fernão Dias, apelidados de os Bueno da Fonseca, esquadrinharam o Caminho Velho. Acharam, pouco antes de 1737, boa quantidade de ouro nas imediações de um afunilamento das águas do Rio Grande e ali passaram a lavrar essa riqueza. O lugar passou a ser chamado de Lavras do Funil e nesse funil foi construída, há pouco tempo, uma usina hidrelétrica.
É claro que também deduziram haver ouro nos afluentes do Rio Grande, nas imediações do garimpo inicial, e uma das lavras foi estabelecida no rio do Cervo, entre as pedras de uma corredeira hoje chamada Banho - que pode designar tanto banho de gente como banho de cascalho. Um dos que mais tarde ainda lucraram com o ouro dali pode ter sido um mulato hábil no trato desse metal, chamado João Inácio Dias, que passou a residir no povoado próximo ao Banho. O povoado veio a ser a cidade de Nepomuceno e nele surgiu a Rua Nova onde eram encontrados os artífices do lugar: carpinteiro, tintureiro, músico, ferreiro, ourives, barbeiro, alfaiate, açougueiro, padeiro e outros. Hoje a Rua Nova tem o nome do ourives João Inácio Dias, de quem descende uma das mais queridas famílias nepomucenenses.
Quando eu era criança e passava as férias na Trumbuca, achei debaixo de enorme pé de jatobá, que declarei ser meu, vários instrumentos de pedra dos antigos índios. Maravilhado e sentado naquela sombra, ficava a imaginar como era a vida deles ali antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Mais tarde fui visitar o local onde existiu o quilombo da Bárbara e passei a estudar seu povo, especialmente seu último líder, o Lolão. Hoje investigo os demais quilombos: Retiro, Calunga e Bacia, que seriam quilombos-sentinelas do grande Quilombo do Cascalho, entrincheirado na Serra das Três Pontas. Os índios daqui (cataguás?, puris?, caiapós?, cambuavas?, garanguis? trumbucas?) e os quilombolas foram os primeiros e mais autênticos nepomucenenses. É nosso dever levantar o máximo possível de sua história, inclusive a violência de que foram vitimas. Alguns nomes de lugares que retratam esse passado são cheios de poesia, de sugestões, ou de interrogações: Ermo, Contendas, Vinte-Horas, Quatis, Morembá, Repolho, Cabeças, Arranca-Rabicho, Limeira, Paineiras, Coqueiros, Pinhal, Piraquara, Bocaina, Esmeril, Cascavel, Carrapato, Queima-Capote, Desidério, Sapé, e Sapecado.
Antes da chegada das plantações de café a Nepomuceno, a economia girava em torno da produção vegetativa de madeira, gado, banha, açúcar e cachaça. Como tudo era de baixa produtividade, as fazendas tinham de ser muito grandes para acudir famílias de muitos filhos. No início, os casamentos entre primos e até entre tios e sobrinhos amenizavam a redução das propriedades. Mas, no século 19, foi inevitável a diáspora de herdeiros que se dirigiram ao oeste, onde era possível a posse gratuita de terras e o desenvolvimento, com pouco capital, de novas fazendas gigantes. Daí que as famílias iniciais de Nepomuceno e região hoje contam com parentes no oeste de Minas, no Triângulo, no noroeste paulista, em Goiás e em Mato Grosso. Por exemplo, fundadores das cidades mineiras de Uberlândia e Ituiutaba, bem como da cidade goiana de Mineiros, são relacionados à família Alves Vilela de Nepomuceno. Os fundadores de Mococa e Casa Branca em São Paulo são relacionados a nossos Garcia, Figueiredo e Lima. Um parente dos Pereira de Nepomuceno fundou Bauru e consangüíneos de nossos Junqueira, Diniz e Antunes fundaram Franca, ambas importantes cidades paulistas. Um recente governador de Goiás, Maguito Vilela, é neto de um Figueiredo Vilela de Coqueiral.
Os povoados de Lavras e de Nepomuceno surgiram de motivos diferentes. O de Lavras nasceu de uma capela, hoje a Matriz da cidade. Gente que não se dava com o tumulto do garimpo do Funil originou um povoado a certa distância dali. Luiz Gomes Salgado, o dono das terras desse local, decidiu construir uma capela em louvor de Santa Ana, autorizada em 1751. O patrimônio doado por ele eram umas capoeiras nas vizinhanças da dita capela, isto é, o atual centro urbano de Lavras. Os descendentes de Luiz Gomes Salgado, fundador de Lavras, hoje são os admirados nepomucenenses da família Teófilo Salgado.
Já o povoado de Nepomuceno surgiu da fazenda do Congonhal, ainda hoje existente, mas sem o casarão primitivo. Os escravos e agregados da fazenda habitavam um arruamento, hoje rua Mariana Januária, que ligava o casarão até o local onde foi erguida uma capela, hoje a Matriz, em louvor de São João Nepomuceno. Nessa época disseminou-se pelo mundo o culto a este santo que viveu 300 anos antes. O fervor foi tão grande que seu nome foi dado a lugares, pessoas e até a navios. O dono da fazenda Congonhal era Mateus Luiz Garcia e o povoado surgido de sua fazenda veio a ser distrito de Lavras, mais tarde promovido a Vila de Lavras. Daí que até hoje o povo de Nepomuceno chama sua cidade de Vila. Ainda agora a fazenda do Congonhal pertence a familiares de Mateus, no caso os filhos do estimado casal João e Vera Veiga.
A maioria das terras da cidade de Nepomuceno, entretanto, não pertencia aos Garcia, mas compunha a imensa propriedade de Vicente Ferreira Costa, o célebre sesmeiro capitão Vicente, da Fazenda da Lagoa. Mateus e Vicente eram capitães. Ser capitão nessa época, antes da Independência, era muito mais do que coronel depois desta. A família Garcia/Figueiredo/Vilela era oriunda de imigrantes açorianos e a família Costa/Salles/Pádua era de ascendência bandeirante. O latifúndio do Capitão Vicente chegava perto da sede da Fazenda do Congonhal. Separando as duas propriedades, passava a Estrada Boiadeira, hoje Avenida São João (uma das ramificações do Caminho Velho). Os familiares do Capitão Vicente reivindicaram que uma faixa abaixo da Estrada Boiadeira era ainda de seu domínio, daí que a rua abaixo da Estrada, apelidada de Rua dos Tocos, passou a ser oficialmente denominada Rua Francisco Lima, herdeiro de Ferreira Costa - mas o povo prefere chamá-la Rua das Árvores. Chamam-na assim por ser a única arborizada, em comparação com as outras três primeiras ruas da cidade: Rua Mariana Januária (de ir à capela), Rua Direita (do comércio, hoje Ernane Vilela), Rua Nova (dos artífices, hoje João Inácio Dias).
Por falar em árvores, Mateus Luiz Garcia, fundador de Nepomuceno, deve ser considerado pioneiro do movimento ecológico mineiro e brasileiro. Os comerciantes da praça principal de Lavras queriam derrubar as belas árvores ali existentes, por cobiça financeira. O povo se opôs. Para garantir a derrubada, os malvados contrataram a proteção de Januário Garcia, o homem mais temido em Minas, por andar com um colar de sete orelhas, retiradas de sete irmãos, assassinos de seu irmão. As árvores não foram abatidas e algumas ainda estão lá para orgulho de lavrenses e nepomucenenses, bem como para a apreciação dos turistas. Quem foi o defensor vitorioso das árvores foi o primo de Januário, nosso Mateus Luiz Garcia. Na praça, diante deste, o temido Januário Sete Orelhas, segundo a tradição oral, teria dito: sei que o primo Mateus não é capaz de pisar numa formiga, mas taí um homem que não enfrento de jeito nenhum...


O autor é professor titular de Clínica Médica e pesquisador em História da Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.
É também historiador do Sul de Minas e autor do livro de memórias O RISO DOURADO DA VILA, 2003.
Este texto, com ligeiras modificações, corresponde ao discurso proferido pelo autor, como orador oficial no 99º aniversário da cidade de Nepomuceno, em 29/08/010

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

DISCURSO DE POSSE DE JOÃO AMÍLCAR SALGADO, COMO MEMBRO HONORÁRIO DA ACADEMIA MINEIRA DE MEDICINA. BELO HORIZONTE, 10-08-010

Que honra é esta, se sou apenas um pobre homem do caminho velho das Minas Gerais?

Precolenda mesa, composta de doutos representantes da comunidade médica e de seletas expressões da sociedade mineira. Saúdo cada qual, na pessoa do presidente Gilberto Madeira Peixoto. Saúdo Valênio Perez França e Marie Louise Stein, os grandes ausentes de hoje. Saúdo a minha turma de 1960, que neste ano aniversaria os seus 50 anos.

Por favor, do alto de seus cabedais, atinem com algo paradoxal. Sua generosa presença e o simpático comparecimento de todos, amigos e familiares, prestigiam um ato ao mesmo tempo honroso e embaraçoso. Sim, esta obsequiosa investidura perturba e embaraça minha modéstia caipira. Nesta circunstancia, o desembaraço só é possível se devolvo a distinção a quem me trouxe até aqui. A começar por meu fraterno companheiro desde a infância: o hoje eminente infectologista pediátrico Edward Tonelli.

Entre tantas e tão precoces titulações, sintetizo-as numa só, que ficará na história e que nos bastaria a nós outros: Tonelli é um dos heróis internacionais da luta anti-pólio. Nós dois somos tão irmãos que seu pai, o inesquecível Zico Tonelli, figura na capa de meu livro de memórias. João Batista Tonelli, o Zico Tonelli, e meu pai, o João Sargado, que era assim chamado, foram o principal alfaiate e o principal farmacêutico de nossa cidade de Nepomuceno. Ali, gastavam boa parte de cada dia a pregar peças um no outro. E também a discutir gravíssimas questões de futebol.

João Salgado Filho, meu pai, foi farmacêutico, professor de colégio e poeta, precisamente como Carlos Drummond de Andrade. E mais: foram contemporâneos no curso de Farmácia em Belo Horizonte. Drummond deixou Itabira e se federalizou, tornando-se poeta transnacional. Meu pai ficou em Nepomuceno, para praticar o humorismo, criando poemas e pomares. Tendo falecido cedo, forma com Belmiro Braga, Dantas Mota, Vinícius Meyer e outros a categoria que chamei de poetas municipais. Eles agitaram boa parte da cultura mineira no século 20. É tema que estudo com carinho e com o indispensável apoio da querida escritora Leila Fonseca Barbosa, sobrinha-neta de Belmiro Braga.

Meu avô, João de Abreu Salgado, compõe o grupo peculiar de educadores que se formaram normalistas no início do século 20. Estudaram, na mesma escola normal de Três Pontas, ele, Samuel Libânio (um dos fundadores de minha Faculdade de Medicina), Carlos Caiafa (pai), Pimenta da Veiga (pai) e outros. João de Abreu Salgado é o primeiro e principal biógrafo do beato Padre Vítor – o santo sacerdote negro do Sul de Minas. Abreu e Caiafa, tão amigos, não sabiam (ou sabiam?) que seriam bisavós dos mesmos bisnetos, Carlos Amílcar e João Vinícius, meus filhos.

Fui avisado de que o membro honorário da Academia não tem patrono. Então peço licença para transformar tal impedimento em permissão. Unilateralmente permito-me designar não um mas mais de um patronos virtuais: o próprio Edward Tonelli e aqueles outros queridíssimos amigos, representados por Arnaldo Antônio Elian, Fernando Araújo, Luiz de Paula Castro, Wilson Luiz Abrantes, Hélio Lopes, Márcio Ibraim de Carvalho, Márcio José de Castro e Silva, Pedro Raso, Nassim da Silveira Calixto, Carlos Alberto Barrros Santos, Jairo Carvalhaes Câmara, Cláudio Azevedo Sales (que me brindou com o transporte até esta solenidade, num dos sofisticados automóveis de sua coleção) e Ernesto Lentz, este meu dileto colega de turma desde os bancos do Colégio Estadual. São os muitos que muito insistiram para que eu aqui chegasse. Entre todos, sublinho dois, que cometeram o exagero de indicar-me como seu sucessor: Pedro Salles, o notável historiador da medicina brasileira, e José de Noronha Peres, o primeiro grande virologista deste país. Do apelo de Salles, a filha Adélia, também escritora e historiadora, prosseguiu na convincente ressonância, em mais que evidente prova de nossa duradoura amizade. A eles acrescento Javert Barros, o primeiro radiologista eleito paraninfo, exatamente em minha formatura e a quem saudei como orador da turma de 1960.

Proclamo também meus patronos os grandes médicos da historia mineira cuja obra estudei. Tenho-os em minha admiração mais enternecida. Certo seria citá-los e também seus feitos, mas a lista é longa. Vou representá-los por um grandioso trio científico: Vital Brasil, Carlos Chagas e Wilson Beraldo; e uma invejável trindade literária: Agripa Vasconcelos, Pedro Nava e Guimarães Rosa.

Vital Brazil Mineiro da Campanha foi batizado assim com estas palavras. Foi o demonstrador internacional da eficácia do soro antiofídico, desautorizando gigantes da ciência. Desde menino, eu o achava parecido com meu avô, seu parente. Sofreu há poucos dias segunda morte com o incêndio irresponsável do Instituto Butantã, obra tão sua, à qual mesquinhamente não quiseram dar seu nome.

Carlos Ribeiro Chagas - este jamais distinguiu a pesquisa laboratorial da investigação de campo e nem estas duas da pesquisa clinica. Por não distingui-las, estava capacitado a fazer a inigualável descoberta que fez, revelando ao mundo a doença que traz seu nome. Trata-se de descoberta processada com esmagadora elegância. Revelou o tripanosoma causador e deste chegou à doença aguda. Desta subiu às formas clínicas e enfim à profilaxia. Esse modo de descobrir era e é inédito, pois é inverso às demais descobertas de doença, em toda a historia da medicina. Primeiranista, li o louvor à peculiaridade de sua façanha, nas palavras enfáticas de um parasitologista norte-americano. Isso me fez forte emoção, que cresceu quando me lembrei de que ele nasceu ali mesmo na Fazenda Bom Retiro, na cidade de Oliveira, não muito distante de onde nasci. Daí que decidi seguir seu exemplo. E de fato minha atividade de pesquisador foi propositalmente exercida no laboratório, em meio a animais experimentais, e no campo, em meio a cafuas e insetos, tanto quanto na clínica ambulatorial e hospitalar. Tal inspiração foi recompensada por meu afortunado encontro com a paciente Berenice. Dela extraí, em 1961, o mesmo micróbio que Chagas identificara em 1909.

Wilson Teixeira Beraldo, autor, com colaboradores, da segunda maior realização da ciência brasileira, a descoberta da bradicinina – é uma das mais fascinantes figuras humanas em minha lembrança. Com ele sucedeu que, na publicação que anunciou a descoberta, seu chefe apareceu em primeiro lugar na lista de autores. Este fato é comum em publicações científicas, mas aqui serve para homenagear João Galizzi, meu chefe. Na publicação do reencontro da paciente Berenice, colocamos seu nome em primeiro lugar. Pois bem, ele não só exigiu que meu nome fosse o primeiro (eu era um recém-formado de 24 anos) como deslocou o seu para o final, na seqüência de co-autores.

Por favor, atentem para algo que nos deve causar nobilitante e estremecido orgulho. Esta monumental e inimitável galeria médica é patrimônio de um Estado, Minas Gerais, cuja história colonial começou 200 anos depois do resto do país! Tudo isso será mais admirável ainda se fizermos um acréscimo. Além das façanhas científicas citadas, é também mineira a maior realização tecnológica brasileira: o conjunto de invenções de Santos Dumont.

E a trindade das letras nada fica a dever aos cientistas. Agripa Vasconcelos é aquele que, em narrativas romanceadas, buscou retratar a essência de nossa identidade. É o mesmo objetivo que tiveram Nava e Rosa por outros meios. Pedro Nava, em sua busca, se fez o maior memorialista lusófono. Guimarães Rosa, em sua inquietação, se tornou o mais criativo prosador da língua portuguesa.

Cismei que cabia a mim, incapaz de obra semelhante, acrescentar modesto complemento ao que realizaram. É o que resumo a seguir.

Para isso, lembro a exclamação inicial que fiz. Donde ela surgiu?

Estava eu sentado diante de Pedro Nava, no Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, em nossa primeira conversa. Observei-lhe: você, no livro Baú de Ossos, disse que era um pobre homem do caminho novo. Ele respondeu, sorrindo: disse e sou... Emendei: pois você, que é do caminho novo, está falando com um pobre homem do caminho velho. Este simples paralelismo em nossa origem nos fez amigos imediatos.

E passamos a comparar os dois caminhos. Falei que de fato sou do caminho velho, num ponto que fica um pouco a oeste da cidade de Ibituruna. Esta foi o primeiro aldeamento não-indígena nesta Província.

Não é de agora que busco a essência mineira nas obras de Pedro Nava, Guimarães Rosa e Agripa Vasconcelos. Este diplomou-se no Rio. Rosa foi contemporâneo de Nava em nossa Faculdade e é omitido sistematicamente por este. Adiei falar-lhe sobre isso e fiquei sem suas razões. De qualquer modo, importa é o caráter mineiro. A paisagem dos caminhos de Minas indica que este se vem prefigurando em pedra há milhões de anos. Duas muralhas, a do Mar e a da Mantiqueira isolam esse jardim brasileiro e sua gente. Os rios completam a obra, pois se ensimesmam em seu fluxo. O Grande, em vez de ser irmão do Paraibuna, se interna rumo oeste. O Sapucaí e o Verde, em vez de irmãos dos Mogis, descem rumo norte; e acumulam uma das mais espessas camadas de húmus do planeta. São imitados pelo São Francisco, pelo Paraopeba e pelo Guaicuí. Estes, em vez de afluir tributários do próprio Grande, preferiram compor tropelias de águas em imenso sertão. E é um sertão tão grande que afinal exigiu três gigantes das letras para caracterizá-lo: o sertão de Afonso Arinos, o grande sertão de Rosa e os sertões de Euclides.

Essa opção pela interioridade sertaneja está, pois, esculpida na própria paisagem física. E veio fazer esplêndido arco gótico com igual interioridade na paisagem humana. Arrefecida a corrida pelo ouro, os que aqui habitavam e não foram mortos se somaram aos que aqui chegaram e gostaram de aqui ficar. Estes sim e não os outros vieram a se definir como os autênticos e radicais mineiros.

Configuramos milagrosa mentalidade convergente. A ela dei o nome de tríplice inclinação totêmica: dos tapuias americanos, dos celtas europeus e dos bantos africanos.

Sim, Minas nasceu totêmica. É filha direta do totemismo tapuia, co-extensivo aos antecedentes andinos da religião aimará. A volúpia do ouro quase nada deixou da língua, da religião e dos costumes tapuias, exceto o pejorativo de suas botocas, a mentira de seu canibalismo e as arengas contra sua sublime insubmissão – propalados por seus genocidas. Há 200 anos vasculhamos seus vestígios culturais, que, infelizmente remontam a quase só ossos, principalmente os desenterrados por Lund e as feições surpreendentes de Luzia.

Minas nutriu-se a seguir do totemismo céltico-galego. Este nos veio da predominância minhota em nosso componente luso. Contrariando a tendência na Eurásia, o totem celta tem por referencia não o velho salvacionismo oriental, mas os mistérios brácaros do Ocidente.

No extremo noroeste ibérico, os celtas se compraziam no jogo de divisar a Ursa Maior, para, dela achar a Ursa Menor e na cauda desta identificar a estrela polar, astro guia, indicador do Norte, garantia fiel do retorno ao lar. O espaço legendário dessa estrela resultou no campus stellae, que é o campo-estrela ou a campo-estela ou Compostela. Enquanto isso, nós aqui em Minas - filhos de minhotos e netos de galegos – persistimos, mesmo inconscientes disso, num eterno peregrinar, no mesmo rumo.

Notável é que um poema totêmico de Minas, aquele que louva a Bárbara bela, e que a diz ser do Norte estrela – acabou-nos servindo de evocação à mensagem libertária da Inconfidência.

Ora, essa gente, que é a maioria de nós e que não tem mar, foi no mar curtida. De tanto se aventurar em ignotos oceanos, perdeu a sobriedade - e adquiriu o vicio da embriaguês das ondas. Em Minas, privada da imensidão atlântica, o espírito argonauta em nós achou de vir navegar quer as ondas encapeladas das serranias mineiras, quer os doces alísios de nossos congonhais.

Enfim, a mentalidade mineira adquiriu vigor no totemismo banto. Este está incrustado na predominância sul-africana daqueles que escravizamos; principalmente das mães-de-leite em quem amamentamos. Ele chegou aqui por uma razão muito especial. Justo porque entre os bantos havia mineradores. E havia também as belas e meigas escravas cabindas, aquelas que os senhores-de-engenho do norte não conseguiam comprar, mas os senhores–do-ouro do sul podiam pagar. Seu totem se relaciona ao monoteísmo núbio e deste se vincula ao monoteísmo histórico. Daí que o congado de nossa infância pode ser visto como o reencontro em Minas de gente da África com a evolução do monoteísmo. Este foi inicialmente totêmico entre os núbios e, via Egito, foi levado ao Mediterrâneo, trampolim que o fez circundar o mundo.

Para terminar, voltemos a Pedro Nava.

Antes de sua morte, escrevi um trecho que prometera a ele e não cheguei a enviar-lhe. Nele digo o seguinte.

Muitos dos ascendentes de nós mineiros decidiram passar além da dor e ultrapassaram o Bojador. Assim, do mar salgado, muito do sal são lágrimas de nossos ancestrais. Por cruzá-lo, muitos de nossos avoengos choraram e muitos em vão rezaram. Quantas noivas ficaram por casar, para que aquele mar fosse um mar também dos mineiros! E esse mar não é o simples mar Atlântico. Este tem fim. O mar com fim é dos outros. O mar sem fim é o mar lusitano, e portanto mineiro também. Valeu a pena? Não, não valeu, pois inventaram o Estado do Espírito Santo e nos privaram desse mar salgado, tão nosso! Por isso é que o rio Doce, qual indignado e indomável aimoré, não quis fazer companhia ao Grande e ao São Francisco. Preferiu invadir o Espírito Santo para nos devolver o mar sem fim de Fernando Pessoa.

Muito obrigado.


quinta-feira, 24 de junho de 2010

INCÊNDIO NO BUTANTAN, SEGUNDA MORTE DE VITAL BRASIL

João Amílcar Salgado

O incêndio ocorrido no Instituto Butantan, em 15 de maio de 2010, deve ser considerado a segunda morte do cientista mineiro Vital Brasil. Tal desastre significa que, desde o falecimento de Vital Brasil em 1950, uma das partes mais expressivas de sua produção científica, que é a coleção de animais peçonhentos iniciada por ele, ficou grave e irreversivelmente danificada, em virtude do descaso com que vem sendo tratada por décadas. Esse descaso é coerente com o menosprezo por sua memória pessoal, tanto por parte de cientistas como de historiadores.

De fato causou pasmo generalizado saber da inconcebível falta de condições de proteção ao acervo incendiado. Isso, se somado à recente (final de 2009) denúncia de corrupção no Instituto, é mais espantoso ainda, multiplicando as dimensões da ofensa à memória de Vital Brasil. Sob o fogo, milhares de exemplares de serpentes, aranhas e escorpiões foram perdidos em condições irremediáveis. As chamas começaram entre sete e oito horas da manhã e às dez horas, inexplicavelmente, nada pôde ser feito para proteger a inestimável coleção. Como sempre, logo depois, gente encarregada de minimizar os efeitos políticos do escândalo veio dizer que a coisa não teria sido tão grave assim.

Quanto à corrupção no Butantan, não se pode saber quando começou, pois desde 1985 a administração é a mesma. Segundo a imprensa paulista, pelo menos 35 milhões de reais saíram da fundação para empresas e destas para funcionários. Uma companhia de manutenção de equipamentos é acusada de ficar com 24 milhões. A quadrilha teria feito depósitos que, segundo a direção empresarial, não eram do conhecimento desta. Os desvios podem chegar a cem milhões.

Diante disso uma pergunta é imediata: que segurança podem ter os produtos bio-farmacêuticos destinados a milhões de brasileiros? A dúvida sobre descuido, desvio e falsificações dos respectivos insumos se impõe de pronto. Para aumentar tal desconfiança, lembramos que, na epidemia de gripe suína do ano precedente, houve generalizada decepção em relação ao que se esperava do Instituto Butantan. Se não há segurança contra o fogo e contra o desvio de recursos, como confiar nas vacinas ali produzidas e na capacidade da instituição para futuros desafios sanitários?

O Instituto Butantan começou muito bem com Vital Brasil. Deu passos duvidosos desde que o criador mineiramente julgou que era a hora de ausentar-se. Deixou sua criatura para que outros nela procurassem servir à ciência tanto como ele, permitindo até que se assenhoreassem do que era intransferivelmente dele. Ele, que derrotou o ofidismo, teve de engolir sapos (entre estes até a sórdida acusação de mercenário), em favor da sobrevivência da ciência, a partir do ponto a que chegou. Tanto sacrifício terá valido a pena? Agora sofre outra enorme agressão. Sim, um óbito adicional lhe é infligido, quando fatos e denúncias passam a manchar lamentável e indelevelmente a parte que lhe cabe da ciência brasileira.

O ano de 2009 foi o ano da comemoração do centenário da maior realização da ciência brasileira: a descoberta da doença que traz o nome de seu autor, o mineiro Carlos Chagas – a quem, por vilania inconcebível, foi retirado o prêmio Nobel de 1921. Já 2010 é o ano em que mais um cientista mineiro, Vital Brasil, é vitimado. Vergonhosa desídia impõe-lhe segunda morte, sob o impacto de escândalos financeiros somados a escandaloso incêndio. Que lástima contemplar hoje assim o Instituto centenário, criado por ele, com desprendimento e heroísmo!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

FRANCISCO DE MELO FRANCO

Do sertão de Paracatu a astro europeu

João Amílcar Salgado

Nasce em Paracatu, Minas, em 1757. Admitido em Medicina em Coimbra em 1776. É acorrentado por quatro anos pela Inquisição, acusado de irreligiosidade. Retoma o curso em 1782. Escreve sátira contra a Universidade em versos perfeitos, intitulada O REINO DA ESTUPIDEZ (1785), que causa a substituição do reitor. Diplomado em 1786, casa-se com a mulher antes presa com ele como testemunha de acusação. Torna-se médico famoso e rico. Empresta e perde toda a sua considerável fortuna. Como médico da corte, acompanha a princesa Leopoldina ao Brasil. No Rio é ignorado, fica doente e vai para São Paulo, onde tem parentes e é ridicularizado por propor a novidade da vacina contra a varíola. Resolve voltar a Portugal, mas, pressentindo que não suportaria a viagem, pede para desembarcar perto de Ubatuba e morre solitário numa palhoça caiçara, em 1823.

Na masmorra escreveu os poemas NOITES SEM SONO (1781) e depois a sátira citada. A seguir: RESPOSTA AO FILÓSOFO SOLITÁRIO 1 e 2 (1787), TRATADO DA EDUCAÇÃO FÍSICA DOS MENINOS PARA USO DA NAÇÃO PORTUGUESA (1790), MEDICINA TEOLÓGICA (1794), OPÚSCULOS SOBRE A VACINA (1814) e ENSAIOS SOBRE AS FEBRES (1824). O eminente pediatra mineiro Martinho da Rocha (no livro NOSSO PRIMEIRO PUERICULTOR (1946)) o proclama pioneiro mundial em puericultura, com seu Tratado de Educação Física. Assim, dá início ao brilho da pediatria de Minas que passa pelo mesmo Martinho e prossegue com Álvaro Aguiar, Valter Teles, Leonel Gonzaga, Navantino Alves, Edward Tonelli, Archimedes Teodoro, José Geraldo Leite Ribeiro, Paulo Pimenta de Figueiredo, Luciano Peret Filho, Antônio Márcio Lisboa, Leonardo Falci Mourão e outros, culminando com o feito da maior carga horária pediátrica do mundo, inspirada no carisma de Ênio Leão, adotada na reforma do ensino de 1975, na Universidade Federal de Minas Gerais.

Estudiosos indicam que, na Medicina Teológica, Francisco de Melo Franco antecipa idéias de Freud. Como especialista em pedagogia médica, o proclamamos primeiro grande pedagogo médico brasileiro, por sua sátira ao ensino coimbrão. Nesta área foi o dianteiro de outros mineiros, como Antonio Gonçalves Gomide, Antonio da Silva Melo e contemporâneos, que dão primazia a Minas no ensino médico. É também vanguardeiro de um rol de médicos mineiros, notáveis como escritores (poesia e prosa): o mesmo Silva Melo (cintilante polígrafo), Pedro Nava (o maior memorialista lusófono), Guimarães Rosa (o mais original prosador do idioma), Paulo Pinheiro Chagas (invejável orador e escritor), João Antônio Avelar (criativo escritor, teatrólogo e humorista) e outros.

APRESENTADO NO 23º CONGRESSO NACIONAL DA SOBRAMES, EM OURO PRETO, JUNHO 2010

MACHADO DE ASSIS E BELMIRO BRAGA

João Amílcar Salgado

Entre os múltiplos aspectos biográficos de Machado de Assis, não pode deixar de ser lembrada a admiração que o poeta mineiro Belmiro Braga dedicou ao escritor carioca. O próprio livro de memórias de Belmiro Braga traduz essa admiração no título: DIAS IDOS E VIVIDOS, derivado do célebre soneto de Machado à esposa Carolina.

Belmiro, um simples balconista do interior mineiro, acompanhava tudo sobre Machado, inclusive a data de seu aniversário. Em 1891 não resistiu ao impulso de ousar cumprimentá-lo por meio de uma carta e um poema, enviados para chegar antes do natalício, 21 de junho. Talvez o missivista fosse a única ou das poucas pessoas a lembrar-se da data. Isso pode ter sensibilizado ainda mais o esplêndido prosador, desencadeando sincera admiração mútua.

Os delicadíssimos versos que acompanhavam a carta começam assim: “Quando ela fala, parece / que Deus é que anda a escutá-la. / A natureza emudece, / quando ela fala.” Em 24 de junho, Machado responde: “Meu caro poeta. Recebi e agradeço-vos muito de coração a carta ....” ... “É doce ao espírito saber que um eco responde ao que ele pensou, e mais ainda se o pensamento, trasladado ao papel, é guardado entre as coisas mais queridas de alguém.” ... “Amigo muito agradecido, Machado de Assis.

Mais extraordinário que a circunstância do início da correspondência entre ambos é o fato de que nunca se encontraram presencialmente. Belmiro se deslocava freqüentemente de Minas para o Rio, com o objetivo de adquirir mercadorias de atacadistas. Ficava rondando a casa de Machado, observando tudo, sem coragem de chegar. Um dia Machado saiu de casa e tomou o bonde. Belmiro quase aproveitou esta oportunidade de se apresentar, mas a timidez foi maior. Sentou-se mais atrás e acompanhou oculto todo o passeio de seu mestre. E isso se repetiu em outras viagens.

Sobre a morte de Machado, diz o próprio Belmiro Braga: “Quando morreu, o meu retrato foi encontrado sobre a sua mesa, um amigo mandou-me flores retiradas de seu féretro e dois oradores, dando-lhe o último adeus, referiram-se ao meu nome...” Antes Belmiro enviara-lhe carta consolando-o da ausência de Carolina. Machado respondeu: “E já que se referiu na sua carta à Carolina, mando-lhe estes versos que acabo de compor.” Completa Belmiro: “E mandou-me o soneto À CAROLINA, que conservo entre os papéis que mais prezo... E eu, que o vi tantas vezes, que o admirava tanto e que tanto lhe queria, nunca tive ânimo de dizer-lhe quem era e de apertar-lhe a mão...”