quinta-feira, 19 de junho de 2008







A MÁ-DIGESTÃO E NEPOMUCENO

João Amílcar Salgado

Nesta data verifica-se a repercussão do lançamento de um livro que honra a cultura de Minas. No 39º Congresso Brasileiro de Gastroenterologia, em novembro de 2006, na cidade de São Paulo, foi lançada a obra DISPEPSIA NA HISTÓRIA & A HISTÓRIA DA DISPEPSIA, versão em livro da tese de mestrado do médico Carlos Amílcar Salgado. Trata-se de um texto que é de interesse de pessoas cultas, especialmente historiadores, podendo até ser lido pelo público em geral. Nele a gente aprende como a má-digestão, que os médicos chamam de dispepsia, foi importante na história da humanidade. Por outro lado, ali é relatado como a dispepsia atormentou grandes figuras da humanidade, a exemplo do imperador Marco Aurélio, do califa Al-Mansur, do iluminista Voltaire, do conquistador Napoleão e do cientista Einstein. Também permite deliciosa viagem ao longo da busca por remédios capazes de aliviá-la, desde plantas e minerais, até produtos da alquímia e da tecnologia atual. Os aplausos recebidos pelo livro é mais uma evidência da projeção da gastroenterologia mineira e da Universidade Federal de Minas Gerais no plano nacional.
Entre os muitos comentários que o tema sugere, é oportuno lembrar sua relação com a cidade de Nepomuceno. Isto porque a tese de Carlos Amílcar Salgado acabou sendo uma homenagem a seu avô, o farmacêutico João Salgado Filho, inventor de célebres gotas para má-digestão. O João Sargado, como era chamado pelos nepomucenenses, vinha observando que o pessoal da Vila sempre comparecia a sua farmácia à procura de alívio para problemas com a digestão.
O sintoma parecia mais comum aqui do que em outros lugares. A princípio ele suspeitou de uma raça de lombriga que só dá aqui, chamada pelo Malico de lombriga de coleira. Mas é quase certo que o mal seja mais simples: resulta do gosto de algumas de nossas famílias pela boa mesa e por refeições exageradas. Querendo aliviar fregueses e amigos, ele começou por selecionar as melhores poções já conhecidas e afinal decidiu criar fórmula inteiramente nova.
Certo dia, um homem chegou à farmácia com cara de desespero e disse que estava com a boca do estômago crescida e não agüentava mais aquele empanzinamento. O Sargado trouxe uma xícara com dois dedos de água e pingou dez gotas do novo remédio. Em poucos minutos veio o alívio e o sofredor exclamou: foi o padre Vítor que me guiou prá entrar nesta farmácia! Daí que o povo passou a chamar o medicamento de gotas do padre Vítor. A verdade é que quando interrompemos a manipulação dessas gotas, muita gente se sentiu desamparada na cidade.
O próprio inventor, que por sinal foi batizado pelo padre Vítor, ficou tão feliz com sua criação que quis dar-lhe um nome à altura, chamando-a tecnicamente de gotas eupépticas, mas, com o tempo, aceitou o apelido dado pelo povo.
Assim, posso muito bem imaginar a satisfação do avô: a razão e o sucesso de sua invenção se reproduzindo no tema e no sucesso do livro de seu neto.

O autor é professor titular de Clínica Médica da UFMG e historiador do Sul de Minas

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